A Canção Passional – Luiz Tatit - Domingueira no IPLA – 31 de maio de 2009

17/07/2009 13h23

Luiz Tatit, músico – compositor, letrista e cantor – um dos fundadores do Grupo Rumo e professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, foi o palestrante na Domingueira do IPLA em maio de 2009.

O tema: A Canção Passional.

A idéia principal que Tatit desenvolveu nessa palestra é que por trás da forma musical há sempre uma força entoativa que tende a regularizar a melodia no inteior de seus compassos. Vejamos como isso ocorre, lembrando suas palavras:
A canção é uma relação entre letra e melodia.

A letra de uma canção não é poesia; é muito difícil musicar uma poesia. Em geral as letras são feitas para uma melodia e o tema é a última coisa que aparece. Normalmente o compositor letrista faz inicialmente uma letra “monstro” que será lapidada até que finalmente surja a letra daquela melodia. Em geral a letra demora mais tempo para ser composta do que a música. Uma boa canção deve ter uma boa relação entre melodia e letra.

É difícil manter a memória das composições. Muitos compositores, como Jorge Benjor, levam sempre consigo um gravador para o caso de registrar suas idéias ou traços de uma composição. Uma melodia quase sempre começa com uma entoação – uma melodia entoativa – que tem uma relação linguística por trás. A entoação é o modo de dizer e a letra é o dito.

A canção sempre foi identificada com um refrão. Uma regra foi criada, a partir de 1930: para uma composição ser completa é necessário haver uma segunda parte, além do refrão. Noel Rosa, que viveu apenas 27 anos, fez cerca de 300 composições, por esse motivo – sempre que alguém chegava numa rádio com um refrão, ele construía a segunda parte, deixando então a música completa. Nós convivemos com a idéia que os cancionistas são músicos e que os letristas são poetas, mas em geral, os cancionistas não sabem música, não são músicos e os letristas não são poetas. O artesanato da canção não é óbvio e não tem nada a ver com critérios musicais nem poéticos.

Tatit não tem preconceito por nenhum tipo de música: Não se deve julgar uma canção por critérios poéticos ou musicais, o que vale é a relação melodia – letra. O fato de uma canção cair no domínio público não tem nada a ver com a qualidade da canção, é questão de divulgação.

É comum que na linguagem coloquial a sonoridade seja desprezada, por isso a canção entoativa tende a ser esquecida, a desaparecer. Existem duas formas de fixar uma canção: a primeira é pela música-refrão – geralmente são músicas alegres, aceleradas – são conjunções entre os elementos (exemplo: “O que é que a baiana tem?”, de Dorival Caymmi). Outra forma é a Canção Passional.

Uma música passional, em geral, oscila entre o grave e o agudo, de uma maneira sistemática e não há repetição (exemplo: “Travessia”, de Milton Nascimento). Há uma transposição melódica – uma ansiedade de ocupar o espaço produzido na mudança de agudos para o grave e vice-versa – os saltos de uma parte a outra. Outra forma é a gradação.

A Canção Passional apresenta uma descontinuidade, um sentimento de falta, como na canção “Travessia” ou uma gradação, como na canção “Eu sei que vou te amar”. A gradação representa um sentimento de espera melhor constituído. Essa idéia de espera se opõe ao que Paul Valéry chamava de surpresa:
“O que já é não é ainda – eis a espera
O que não é ainda já é – eis a surpresa.”
(Paul Valéry)

Essa surpresa, diz Valéry, é o que aniquila com o sujeito – comenta Luiz Tatit. E continua: Os autores de vanguarda, em geral, gostam de mexer com a surpresa, com a descontinuidade.

A Canção Passional explora a espera e a surpresa. No fundo, o que está em jogo é a separação espacial aliada à conjunção temporal. O vínculo temporal é o que fica – isso é o que as canções traduzem muito bem – pois as canções sempre transcorrem no tempo. Há uma conjunção com o tempo e uma disjunção com o espaço. O tempo é muito bem expresso nas canções e também na música erudita.

Tatit respondeu várias perguntas da platéia de uma forma descontraída, deixando-nos tocados e impregnados pelas questões que desenvolveu.

Jorge Forbes agradeceu a presença de Tatit e fez um pequeno comentário: Essa palestra faz pensar numa questão que o persegue há muito tempo – fazer análise por música. É fundamental para a psicanálise identificarmos de que maneira a música pode tocar o corpo. A psicanálise não é mais algo de como saber mais a seu próprio respeito, mas, de que maneira você pode tocar o corpo com um som. Não é mais uma questão de aumentar o saber, mas, de que maneira é possível articular a palavra com o corpo de forma a possibilitar às pessoas encontrar variações na sua satisfação. Qual a possibilidade de se fazer psicanálise por música, de transformar essa experiência desagregada numa canção, de forma que a pessoa possa viver uma satisfação que ela não conseguia antes, com esse seu sinthoma, com as suas dificuldades?, questiona Forbes, para finalizar.

Foi uma domingueira memorável!

Teresa Genesini

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