Comentário de Elza a Jésus

17/07/2009 13h24

Elza Macedo

Resposta de Elza Macedo ao comentário de Jésus Santiago para o trabalho apresentado pelo Instituto da Psicanálise Lacaniana – IPLA, para a reunião dos Institutos do Campo Freudiano no Brasil, em 3 de abril de 2009, por ocasião do VIII Congresso da EBP O analista e os semblantes, em Florianópolis.

Quero agradecer o trabalho de Jésus Santiago na sua leitura crítica que fez do meu texto Como o Instituto da Psicanálise Lacaniana - IPLA enfrenta os embrulhos do real? A meu ver, Jésus divide seu trabalho em duas partes: Primeiro, fazendo um comentário geral sobre a maneira que expus o Instituto. Segundo, comentando e alertando sobre a prática que desenvolvemos neste Instituto, em relação à Segunda Clínica de Lacan, seus benefícios e seus perigos. Quanto à parte inicial, Jésus Santiago diz que concorda com a apresentação do Instituto a partir da sua orientação na clínica lacaniana e não a partir da sua burocracia. E também, longamente, comenta a importância da pesquisa clínica, da divisão com os colegas e na tentativa de estabelecer critérios que possam, na clínica, questionar a teoria e, da clínica, possibilitar avanços da própria teoria.

Na segunda parte, Jésus levanta um questionamento sobre a segunda clínica de Lacan, que tomamos como ponto de fundamental interesse em nosso trabalho no IPLA para o tratamento do mal estar contemporâneo, a saber, para o homem desbussolado da globalização. Jésus se preocupa que estejamos alerta a que a segunda clínica de Lacan, a clínica do real, não seja dissociada da questão dos semblantes. Como toda crítica, essa revela o interesse de seu autor. Jésus generosamente busca em nosso trabalho institucional, interlocução para suas questões atuais. E assim nós podemos entender quando ele diz coisas tais como: “Em outros termos, fazer vacilar e tremular os ideais ao revelar o seu caráter de semblantes, não implica assumir que outros semblantes não sejam necessários.” (p. 11) A preocupação de Jésus, com a semblantização, fica mais clara em seu trabalho recente, apresentado na Escola da Causa Freudiana, de Paris, onde ele antepõe o nominalismo e o realismo, deixando ali entender, que um dos riscos da segunda clínica de Jacques Lacan, tomada ao pé da letra de um real independente do semblante, levaria a prática clínica a um nominalismo impróprio à psicanálise. Porém, lendo esse seu trabalho, publicado no Boletim Um por um, n. 64, vemos que o próprio autor não chega à conclusão de que no lugar do nominalismo deveríamos ter um realismo, pois também critica a idéia de levar a psicanálise ao realismo, embora ache que seria essa a decorrência da frase de Lacan, no Seminário 18, ao se dizer não-nominalista. Mas, como dizia, o autor critica a idéia de que caísse num realismo. E diferente não poderia ser, se lembrássemos que na base do realismo está o platonismo, o que seria, portanto, muito estranho salvar a psicanálise do nominalismo e colocá-la na solução do platonismo. Dizer que Lacan não é nominalista quereria então dizer que Lacan é platônico? O texto de Santiago, apresentado em mesa recente na ECF, é inconcluso sobre esse ponto. Concordamos com Jésus em sua inconclusão. Assim anunciaríamos que provavelmente as categorias de nominalismo e realismo não são suficientes, pela sua dicotomia e pela sua inserção filosófica, para ler os fenômenos com que tratamos na segunda clínica de Jacques Lacan. Essa clínica não pode se sustentar nesse dualismo. Essa clínica necessita de uma nova topologia. Essa clínica não pode ser lida com essas categorias filosóficas. Tem que se notar, aliás, que em sua aula recente, aula 12, de 18 de março deste ano, Jacques-Alain Miller diz da incapacidade da filosofia em ler os fenômenos da psicanálise, que fez, aliás, com que ele se afastasse da filosofia, no caso a referência era a distinção entre saber e crer. A crítica ali do então filósofo Jacques-Alain Miller, feita pelo hoje psicanalista Jacques-Alain Miller, deve nos alertar sobre a orientação lacaniana, que ela não volte aos recursos filosóficos para denominar a experiência do real psicanalítico. Como, então, poderíamos responder à inquietação não só presente no texto de Jésus Santiago, mas de muitos colegas que pensam ser necessária a passagem lenta, progressiva e gradual, da primeira clínica para a segunda clínica? Cairíamos, então, num relativismo, por entender, como Jorge Forbes disse em 2001, à comunidade da Escola, que deveríamos diferenciar o real com sentido do real sem sentido e que a clínica psicanalítica se dirigiria ao real sem sentido? Deveríamos, então, temer, e esse parece ser o superego do mestre moderno como muitos gostam de dizer, quando estamos na pós-modernidade? quereria, então, dizer que cairíamos num relativismo, doença do referido nominalismo, mas não só dele? Não. Com isso temos respondido através do princípio responsabilidade, largamente desenvolvido por Hans Jonas. Ali encontramos assim enunciada uma posição que nos salva da deriva relativista tão temida em nossas discussões. “Ao princípio esperança, contrapomos o princípio responsabilidade, e não o princípio medo.” Concluo, então, que o real, do nosso ponto de vista, o real do sinthoma, é sim, um real sem sentido. Qualquer real com sentido já é um real construído. Todos os semblantes se merecem. Nenhum deve ter superioridade sobre outro. E porque todos os semblantes se merecem, que a necessidade não fica no debate entre o realismo e o nominalismo, mas, sim, num debate ético sobre a responsabilidade da escolha de um papel social, que é o outro nome do semblante e de um modo de gozar menos insatisfatório. Se quisermos seguir a orientação de Jacques-Alain Miller, nas últimas palavras da já citada aula: “Trata-se aqui de um real que não se demonstra, mas que se sente como o que não engana. Porque a verdade está aberta aos remanejamentos do semblante, enquanto que o real enquanto não engana, se fecha ao semblante.”