Como o Instituto da Psicanálise Lacaniana - IPLA - Enfrenta os Embrulhos do Real?

16/07/2009 15h00

Elza Macedo (1)



Na sequência, o comentário de Jésus Santiago, seguido da análise de Elza Macedo.

Trabalho apresentado pelo Instituto da Psicanálise Lacaniana – IPLA, para a reunião dos Institutos do Campo Freudiano no Brasil, em 3 de abril de 2009, por ocasião do VIII Congresso da EBP O analista e os semblantes, em Florianópolis.

O Instituto da Psicanálise Lacaniana – IPLA pauta-se pela pesquisa da segunda clínica de Lacan. Globalização, recursos tecnológicos, conhecimento científico, consumismo, têm muitas consequências. Hoje, por exemplo, bebês podem ser escolhidos in vitro, doenças genéticas reclamam solução científica, não se ama, não se trabalha e nem se estuda como antes, o prolongamento “ilimitado” da vida acelera a discussão do problema da eutanásia. No IPLA, nos comprometemos com uma psicanálise lacaniana atenta a esses desafios, que vemos como “embrulhos do real” e que ficaram mais evidentes com a queda do nome-do-pai. Antes estava tudo equilibrado dentro de um tamponamento do real através do nome-do-pai. Deslocado que foi pela modificação da passagem do mundo moderno para o pós-moderno, temos necessidade clínica de um novo instrumento: a chamada segunda clínica de Jacques Lacan.

Para Lacan (2) “o real se encontra nos embrulhos do verdadeiro.” Até o final de seu ensino ele está às voltas com estes embrulhos, chegando a cunhar o neologismo stembrouille4 (estembrulho)(3), para nomeá-lo. Ainda em seu último seminário, A topologia e o tempo (1978-79), continua com o tema: “O borromeano generalizado, é óbvio que eu não compreendo nada, eu me embrulho, isto que vocês testemunham o fato que, nisso eu estou absolutamente embrulhado”. A escolha por esta linha de investigação no IPLA se evidenciou no curso, Os embrulhos do real, ministrado por Jorge Forbes no Instituto de Psicologia, USP, em 1998.

Quais são os fundamentos de uma psicanálise que incide sobre um real em que tropeçamos? Enumeramos alguns. A psicanálise lida com o incurável do homem. A posição do analista é ética, e não moral. Não é normativa e nem coletiva. É uma psicanálise da conseqüência, que responsabiliza o sujeito e visa ao singular. Diferencia inconsciente simbólico de inconsciente real. Não procura dar sentido, ao contrário: a ironia se torna uma ferramenta eficaz. Do mesmo modo, a interpretação é usada como operação de desarticulação. Relativiza os efeitos terapêuticos. Alguns desses fundamentos são desenvolvidos por Miller (2008-09)(4), nesse ano. No IPLA pratica-se uma psicanálise que busca incidir sobre diversos aspectos da sociedade e avaliar os reflexos desta atuação. Esta incidência opera por meio do Corpo de Formação em Psicanálise, composto de quatro conjuntos interdependentes: curso de formação, eventos diversos (“Sábados no IPLA”, “Domingueiras”, “Conversação Clínica”, interlocuções universitárias), a clínica e o núcleo de educação. Tomamos como elemento princeps dessa incidência, a clínica. A Clínica do IPLA é composta por três unidades clínicas: Clínica Escola, Clínica de Psicanálise do Genoma Humano e Núcleo de Pesquisas de Psicopatologia e Psicanálise. Estas duas em parceria com a Universidade de São Paulo. As três clínicas trabalham de modo comparável, respeitadas as particularidades de cada uma. Consideram-se, conforme já mencionado, princípios propostos por Lacan: ao invés de dar sentido, trabalhar com a interpretação na vertente do equívoco, do humor, do ressoar; buscar o surgimento de “significantes novos”, da conseqüência, da responsabilidade e do intratável do sintoma. Dá-se ênfase, em especial, à desautorização do sofrimento, investigação e acompanhamento múltiplo e crítico de casos, no enfrentamento dos embrulhos do real, na diversidade de seus modos de expressão.

  1. Clínica Escola: Funciona na sede do IPLA e atende pessoas com quadros clínicos diversos. Trata-se do lugar onde os analistas em formação podem se dedicar à reinvenção da psicanálise frente ao desafio trazido por essa diversidade de quadros clínicos dos pacientes que recebem. Na direção dos casos, busca-se privilegiar o singular das formas de gozo daqueles que são tratados, considerando os aspectos, já mencionados, que caracterizam a segunda clínica de Jacques Lacan. As pessoas procuram a Clínica Escola, não como uma clínica social, mas pela interlocução que o IPLA estabelece com a comunidade e por ser uma clínica de referência. A Clínica Escola articula-se diretamente com o curso do Corpo de Formação através dos temas e dos casos clínicos trabalhados.
  2. Clínica de Psicanálise do Genoma Humano: Funciona no Centro de Estudos do Genoma Humano - USP. As pessoas ali atendidas, na maioria, são portadoras de doenças neuromusculares degenerativas. Temos uma casuística estudada em detalhe, de 50 casos. A questão maior é como recuperar a perplexidade da vida, quando a certeza da doença é tão notável. Primeiro, aparecem fenômenos corporais e os familiares começam a apontar algo estranho. Então, começa uma longa romaria aos consultórios dos especialistas, inicialmente incapazes de interpretar os sintomas. Pela natureza surpresiva de sua configuração genética, o paciente se vê convocado a se virar com algo impossível de simbolizar.
    Observa-se que para evitar o confronto com os embrulhos do real, o diagnóstico tende a ser tomado – pelo paciente e sua família - como um destino a ser seguido. Ao recebê-lo, ao invés de construir uma resposta criativa, o paciente se agarra a um sofrimento prêt-à-porter e, como conseqüência desta escolha, piora e vê sua distrofia progredir mais rápido. A hipótese é que desautorizar o sofrimento implica em retardar o processo degenerativo.(5) Para exemplificar, o fragmento de um caso: José tem distrofia miotônica de Steinert e chega à Clínica de Psicanálise do Genoma encaminhado pela médica deste Centro, que fica preocupada com seu estado de depressão. De fato, ele chega magro, barba emaranhada, mal vestido e vai logo anunciando: “Desde a morte de minha mãe eu fico no seu túmulo o dia todo”. Doente, acometido de distrofia miotônica de Steinert, perdeu a mãe, a namorada o abandonou. “Cheguei até a ficar vinte dias sem tomar banho, quase sem comer.” O analista escuta impassível, informa-se dos detalhes, solicita precisões: E você leva comida? Você se senta no túmulo? José nem pensa no esdrúxulo da situação. Só quer falar da sua depressão. “Mas antes, eu gostava de fazer piada, de cozinhar, eu não era assim.” A doença seria a causa da depressão? O analista mantém a demanda do lado do paciente e não cede à solicitação de compaixão. Exige dele uma prova de seu desejo: Se você não vier segunda-feira, eu saberei que você preferiu o cemitério. Assim, desautorizar o sofrimento padronizado implica em não pactuar com o sofrimento e não ficar sob o impacto do diagnóstico. Trata-se de uma clínica irônica, que joga com o equívoco. 
  3. Clínica do Núcleo de Pesquisa em Psicopatologia e Psicanálise. Funciona no Hospital das Clínicas, Instituto de Psiquiatria, da USP. Atende a pessoas afetadas por processos crônicos psiquiátricos, com repetidas internações, com diagnósticos e tratamentos não conclusivos. Aqui a clínica incide nos embrulhos do real expressos na psicose, nas dificuldades de estabelecimento do laço social, casos fora-do-discurso ou do discurso comum. Neste contexto, é realizada a Apresentação de Pacientes, por Jorge Forbes. Segue-se o fragmento do caso de um homem que se queixava de dores intensas e buscava, em vão, diagnóstico de uretrite, prostatite, bacite. Disse: “Estou igual ao Cocada, da Praça é Nossa.” O analista interveio de modo a isolar o sintoma como não decifrável: Agora você é portador de “cocadite”, uma doença invisível. O Dr. X vai cuidar de você. Ele é especialista em DI - doença invisível. Aliviado, o paciente declarou: “Ninguém nunca me escutou como o senhor.” Tratou-se aí de circunscrever um ponto um ponto que não tem nome.
  4. Núcleo de Pesquisas em Educação e Psicanálise. Funciona em parceria com a Faculdade de Educação, da USP, e analisa os embrulhos do real na cultura e na educação. A segunda clínica de Jacques Lacan nos possibilita lidar com a Educação de outra forma. Em vez da repressão, a liberdade de escolha. Em vez, da tradição, a descoberta do novo. Em vez da imposição, o princípio responsabilidade. Uma saída para a educação pautada no passado. Criação de uma Educação para o presente e o futuro. Uma Educação que se transforma em educações e propostas singulares de se lidar com a cultura onde o sujeito – aluno e professores – é sempre a tônica. Uma educação onde se aprende a desaprender, para criar e inventar o novo. Em resumo, o IPLA é uma instituição que busca inovar a clínica, a pesquisa, a formação e a transmissão da psicanálise na perspectiva do tratamento do homem contemporâneo. Entende que enfrentar os embrulhos do real, que aparecem com a desregulação do laço social, por meio da segunda clínica de Lacan, seja um imperativo ético. Nele a psicanálise é pensada no tempo presente. Por isso os que ingressam no Corpo de Formação 2009 já chegam enfrentando as questões que a psicanálise debate hoje. Não esperam anos a fio para chegarem ao “banquete dos analistas”.


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(1) Agradeço aos colegas Ariel Bogochvol, Claudia Riolfi, Leny Mrech e Teresa Genesini pela colaboração.

(2)LACAN, J. (1975-76). Le Séminaire XXIII – Le sinthome. Paris: Seuil, 2005, p. 85.

(3)LACAN, J. (1976) “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”. in: Outros Escritos, 2003, p. 567.

(4)MILLER, J.-A. L´Orientation Lacanienne “Choses de finesse en psychanalyse”, 2008-09. http://www.causefreudienne.net/etudier/le-cours-de-jacques-alain-miller/choses-de-finesse-en-psychanalyse-cours-2008-2009

(5) FORBES, Jorge. Maktoub? A influência da Psicanálise sobre a expressão dos genes, 2008a. Confira aqui. Acesso em: 21/2/2009.
__________ Uma hipótese de trabalho: A influência da psicanálise na expressão dos genes. In: asephallus. Volume 3, n. 5, novembro de 2007 a abril de 2008b.
www.nucleosephora.com/asephallus/numero_05/artigo_03.htm . Acesso em 21/2/2009.

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Comentário de Como o Instituto de Psicanálise Lacaniana - IPLA - Enfrenta os Embrulhos do Real?

Jésus Santiago
Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais (IPSM-MG)

Quero expressar, em primeiro lugar, a minha dificuldade em comentar um relatório de atividades, sobretudo, quando este se refere à descrição de práticas que se desenrolam ao longo do tempo e segundo uma riqueza variada e complexa de elementos que, certamente, escapam ao escopo de um texto breve. Posso dizer que, ao contrário disto, o trabalho do IPLA, de autoria da Elza Macedo, facilitou-me a tarefa do comentário na medida em que busca elencar suas diversas atividades com argumentações que se embasam nos princípios que orientam seus diversos empreendimentos. Não pretendo, portanto, entrar numa discussão dos pormenores internos e específicos ao funcionamento das ofertas de ensino e pesquisa dos núcleos e dos cursos ministrados. Meu interesse principal é estabelecer uma conversação visando problematizar um dos princípios que, a meu ver, me parece crucial para a configuração do que é próprio nesta constelação interdependente de práticas clínicas e de ensino.

A interrogação que me ocorre fazer concerne ao princípio de que “o IPLA pauta-se pela pesquisa da segunda clínica de Lacan”. Antes de mais nada, chamo a atenção para o fato de que os últimos avanços desse ensino não são tomados, pela autora, como um conjunto fechado e acabado, visto que se prestam ao trabalho de pesquisa e confrontação com os desafios e exigências que o mundo atual coloca à psicanálise. Nesses termos, a segunda clínica não é apenas um corpo de noções e categorias que se encerram nele próprio, mas uma ferramenta apropriada para lidar com os impasses que atingem a prática do psicanalista, decorrentes da incidência transformadora da ciência. É notório o vivo interesse do Instituto da Psicanálise Lacaniana pelas mutações, na subjetividade contemporânea, que advêm, por exemplo: da escolha de bebês in vitro, das consequências do prolongamento da vida, das soluções científicas para as doenças genéticas e, em suma, do fato de que, nos dias de hoje, não se ama e nem se trabalha como em épocas passadas. Não há dúvidas de que o transcurso da evolução sintomática da civilização se encontra ancorado nos remanejamentos constantes do discurso da ciência, e que estes não apenas determinam o ambiente atual da psicanálise, mas também os delineamentos do que promete ser o seu futuro.

Nada dessa empreitada se insere nas iniciativas do protesto nostálgico a esses remanejamentos, cuja inspiração é o espírito romântico que, em oposição ao das Luzes, se apresenta amparado pelo julgamento ingênuo e carregado de pré-conceitos da tradição civilizatória. Considero, nesse sentido, decisivo enfatizar o modo como essas repercussões da ciência sobre a prática analítica são concebidas à luz da conceituação fundamental dos embrulhos do real que, como se assinala no texto, ficam mais evidentes, na época atual, com a dissolução gradativa dos efeitos de simbolização do Nome-do-Pai sobre o gozo do sintoma. Se somos modernos, se levamos em conta o fato de que a ciência se institui por intermédio do corte incisivo com relação à tradição passada, isto não nos impede de admitir que o real se encontra nas embrulhadas e nos emaranhados do verdadeiro.

Há toda uma vertente ideal da racionalidade científica que se apresenta pelo desmascaramento do caráter contingente, e mesmo arbitrário, dos semblantes que estruturam o funcionamento da sociedade. Afirmar isso não quer dizer que os semblantes não sejam necessários para dar lugar ao fator estruturante das verdades que pesam, de maneira substancial, na própria existência do laço social. Talvez, essa seja a característica principal do que Lacan almeja valorizar naquilo que se escreve como o discurso do mestre.

Postular que o laço social se tece por meio dos semblantes não impede à psicanálise de se associar ao ideal da ciência expresso na denúncia reveladora do valor de semblante dessas verdades estruturantes. O maior exemplo disso é que, desde os anos 30, Lacan se mostrou sensível à decadência e ruína da autoridade paterna. No entanto, mostrar-se lúcido quanto declínio da função paterna e de todos os ideais que lhe são inerentes não significa que se pode ir além deles sem saber utilizá-los. Vale dizer que, para a psicanálise, os semblantes também são necessários. Porém, que ordem de necessidade a clínica psicanalítica propõe para a existência dos semblantes? Antecipo que o simplismo da resposta sugerida pela psicanálise é apenas aparente! Se é verdade que os semblantes não passam de semblantes, porém, tomemos os melhores para fazer o menos mal possível.

É, nesse ponto preciso, que a psicanálise também se distingue da ciência. Em outros termos, fazer vacilar e tremular os ideais ao revelar o seu caráter de semblantes, não implica assumir que outros semblantes não sejam necessários. Pode-se supor, como afirma a autora, que por essa mesma razão Lacan se mostra, até o final de seu ensino, às voltas com os chamados embrulhos do real. Uma preocupação que é levada ao ponto de tornar tais emaranhados, tais embrulhadas, como objeto de uma nomeação, capaz de apreender o real do sintoma, nomeação fabricada por meio do neologismo estembrulhos [stembrouilles]. Isso significa que o real do sintoma não pode se desvencilhar inteiramente de sua opacidade fundamental, e que é de sua índole não se mostrar, na plena luz do dia, como uma realidade transparente.

A meu ver, um tal enfoque é o que, nos espaços clínicos do IPLA, incita colocar à prova uma prática clínica que se traduz pela junção da contemporaneidade dos sintomas e a segunda clínica. Ou seja, a diversidade sintomática, expressa no enfretamento dos embrulhos do real, é o que institui a necessidade, do que se designa como uma clínica pragmática, uma clínica das suplências, por oposição à prática da interpretação calcada nas formações do inconsciente. Como se refere, Serge Cottet, nas Entrevistas do Momento Atual, trata-se de um campo fértil à exploração da função inventiva do sintoma que, em última instância, obriga-nos a explicitar os requisitos da clínica do enodamento e de todos os recursos referentes à sua aplicação, a saber: o nó, o furo e o corte. Parece-me evidente a exigência com a qual o IPLA se debate, a saber: resgatar as insuficiências da clínica psicanalítica diante das expressões contemporâneas do sintoma. Nesse sentido, vejo com bons olhos a preocupação incessante em associar o trabalho clínico com o trabalho investigativo, com o acompanhamento múltiplo e crítico dos casos, tendo em vista que não são poucos os obstáculos teórico-clínicos que se interpõem nessa tarefa institucional.

Na articulação entre esses dois planos distintos da prática ofertada pelos Institutos – a pesquisa e a clínica –, coloca-se, a meu ver, uma diretiva fundamental relativa a um desses obstáculos que é a tendência de estabelecer um equacionamento rápido entre as categorias do último ensino de Lacan e a aplicação da psicanálise à atualidade do sintoma. Observo que, muitas vezes, procura-se reduzir o que se constitui como uma elaboração complexa, por J.-A. Miller, do chamado inconsciente real e o substrato intratável do sintoma. É preciso distinguir o que se manifesta como o intratável que se deduz de um longo trabalho de análise, em que a decifração do material inconsciente teve um lugar destacado, e o incurável proveniente do elemento irascível do gozo nos novos sintomas. O caráter ininterpretável do inconsciente, presente nos casos de psicose e de novos sintomas, com a pouca permeabilidade desses sujeitos aos efeitos da função da palavra, não pode ser confundido com o desabonamento do inconsciente tomado como traço marcante do final de análise.

Creio que a vertente pragmática que buscar isolar o material sintomático com o intuito de favorecer, seja uma separação com o destino nocivo do gozo, seja uma forma de suplência que permitiria reparar uma carência simbólica, não deve ser concebida à luz da noção de inconsciente real e, tampouco, do viés reparador do sinthoma. Com isso, procuro salientar que cabe aos Institutos calcular as consequências e os riscos de um empreendimento que, apesar de contar com a garantia epistêmica da segunda clínica de Lacan, não estão imunes à absorção, em seus achados e inovações, das demandas do mestre contemporâneo. Apenas a existência da Escola de Lacan, entre nós, e uma política de formação rigorosa e sistemática sobre o real do sintoma permitem lidar com a linha tênue que separa o campo da psicanálise pura e aplicada e o campo dos usos degradados e triviais de sua prática.

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Comentário de Elza a Jésus

Quero agradecer o trabalho de Jésus Santiago na sua leitura crítica que fez do meu texto Como o Instituto da Psicanálise Lacaniana - IPLA enfrenta os embrulhos do real? A meu ver, Jésus divide seu trabalho em duas partes: Primeiro, fazendo um comentário geral sobre a maneira que expus o Instituto. Segundo, comentando e alertando sobre a prática que desenvolvemos neste Instituto, em relação à Segunda Clínica de Lacan, seus benefícios e seus perigos. Quanto à parte inicial, Jésus Santiago diz que concorda com a apresentação do Instituto a partir da sua orientação na clínica lacaniana e não a partir da sua burocracia. E também, longamente, comenta a importância da pesquisa clínica, da divisão com os colegas e na tentativa de estabelecer critérios que possam, na clínica, questionar a teoria e, da clínica, possibilitar avanços da própria teoria.

Na segunda parte, Jésus levanta um questionamento sobre a segunda clínica de Lacan, que tomamos como ponto de fundamental interesse em nosso trabalho no IPLA para o tratamento do mal estar contemporâneo, a saber, para o homem desbussolado da globalização. Jésus se preocupa que estejamos alerta a que a segunda clínica de Lacan, a clínica do real, não seja dissociada da questão dos semblantes. Como toda crítica, essa revela o interesse de seu autor. Jésus generosamente busca em nosso trabalho institucional, interlocução para suas questões atuais. E assim nós podemos entender quando ele diz coisas tais como: “Em outros termos, fazer vacilar e tremular os ideais ao revelar o seu caráter de semblantes, não implica assumir que outros semblantes não sejam necessários.” (p. 11) A preocupação de Jésus, com a semblantização, fica mais clara em seu trabalho recente, apresentado na Escola da Causa Freudiana, de Paris, onde ele antepõe o nominalismo e o realismo, deixando ali entender, que um dos riscos da segunda clínica de Jacques Lacan, tomada ao pé da letra de um real independente do semblante, levaria a prática clínica a um nominalismo impróprio à psicanálise. Porém, lendo esse seu trabalho, publicado no Boletim Um por um, n. 64, vemos que o próprio autor não chega à conclusão de que no lugar do nominalismo deveríamos ter um realismo, pois também critica a idéia de levar a psicanálise ao realismo, embora ache que seria essa a decorrência da frase de Lacan, no Seminário 18, ao se dizer não-nominalista. Mas, como dizia, o autor critica a idéia de que caísse num realismo. E diferente não poderia ser, se lembrássemos que na base do realismo está o platonismo, o que seria, portanto, muito estranho salvar a psicanálise do nominalismo e colocá-la na solução do platonismo. Dizer que Lacan não é nominalista quereria então dizer que Lacan é platônico? O texto de Santiago, apresentado em mesa recente na ECF, é inconcluso sobre esse ponto. Concordamos com Jésus em sua inconclusão. Assim anunciaríamos que provavelmente as categorias de nominalismo e realismo não são suficientes, pela sua dicotomia e pela sua inserção filosófica, para ler os fenômenos com que tratamos na segunda clínica de Jacques Lacan. Essa clínica não pode se sustentar nesse dualismo. Essa clínica necessita de uma nova topologia. Essa clínica não pode ser lida com essas categorias filosóficas. Tem que se notar, aliás, que em sua aula recente, aula 12, de 18 de março deste ano, Jacques-Alain Miller diz da incapacidade da filosofia em ler os fenômenos da psicanálise, que fez, aliás, com que ele se afastasse da filosofia, no caso a referência era a distinção entre saber e crer. A crítica ali do então filósofo Jacques-Alain Miller, feita pelo hoje psicanalista Jacques-Alain Miller, deve nos alertar sobre a orientação lacaniana, que ela não volte aos recursos filosóficos para denominar a experiência do real psicanalítico. Como, então, poderíamos responder à inquietação não só presente no texto de Jésus Santiago, mas de muitos colegas que pensam ser necessária a passagem lenta, progressiva e gradual, da primeira clínica para a segunda clínica? Cairíamos, então, num relativismo, por entender, como Jorge Forbes disse em 2001, à comunidade da Escola, que deveríamos diferenciar o real com sentido do real sem sentido e que a clínica psicanalítica se dirigiria ao real sem sentido? Deveríamos, então, temer, e esse parece ser o superego do mestre moderno como muitos gostam de dizer, quando estamos na pós-modernidade? quereria, então, dizer que cairíamos num relativismo, doença do referido nominalismo, mas não só dele? Não. Com isso temos respondido através do princípio responsabilidade, largamente desenvolvido por Hans Jonas. Ali encontramos assim enunciada uma posição que nos salva da deriva relativista tão temida em nossas discussões. “Ao princípio esperança, contrapomos o princípio responsabilidade, e não o princípio medo.” Concluo, então, que o real, do nosso ponto de vista, o real do sinthoma, é sim, um real sem sentido. Qualquer real com sentido já é um real construído. Todos os semblantes se merecem. Nenhum deve ter superioridade sobre outro. E porque todos os semblantes se merecem, que a necessidade não fica no debate entre o realismo e o nominalismo, mas, sim, num debate ético sobre a responsabilidade da escolha de um papel social, que é o outro nome do semblante e de um modo de gozar menos insatisfatório. Se quisermos seguir a orientação de Jacques-Alain Miller, nas últimas palavras da já citada aula: “Trata-se aqui de um real que não se demonstra, mas que se sente como o que não engana. Porque a verdade está aberta aos remanejamentos do semblante, enquanto que o real enquanto não engana, se fecha ao semblante.”

Elza Macedo