De Eric Laurent: “Nossa política para a psicanálise e a da IPA: três exemplos”.

16/07/2009 19h08

O inconsciente freudiano tem agora uma tradução na língua das neurociências. Ao menos, esse é o novo paradigma que, seguindo Eric Kandel, os defensores da psicanálise cognitiva tentam estabelecer por todo o campo.

Kandel quer conduzir a psicanálise de seu « contexto de descoberta », pré-científico, a uma etapa superior, científica, absorvendo-a na nova disciplina das neurociências cognitivas . (1) Esse projeto ganhou forma em dois artigos famosos que precederam seu prêmio Nobel de medicina por trabalhos sobre o armazenamento de memória. O projeto Kandel é radical e quer convencer todos os psicanalistas de sua boa fundamentação. É preciso, segundo ele, modificar tudo nas formas existentes da psicanálise : a formação dos psicanalistas, sua prática e sua forma de organização institucional. A formação deve ser assumida pela universidade, a prática deve ser aberta às avaliações quantitativas, a pesquisa deve inserir-se nas formas admitidas de pesquisa científica.

Os trabalhos neurológicos de Kandel pautam-se no isolamento do módulo do que ele chama de memória procedural. Os procedimentos repetitivos desta memória não recorrem nem à consciência, nem à linguagem que supõe um sujeito. Esse módulo utiliza diversos sistemas : o córtex sensório-motor, a amídala, o neostriatum. Essa memória dos comportamentos que se produzem sem recurso à consciência é, para ele, a realização dos processos freudianos inconscientes. Ele forja então o termo « inconsciente procedural ».

O essencial de uma psicanálise se passa, para ele, no nível do processo de repetição e de mudanças de comportamento do paciente, que modifica e aumenta seus modos de atuar do tipo procedural. O essencial ocorre fora da interpretação e da dimensão do sentido. Os poucos momentos em que o inconsciente procedural pode ser acessível ao consciente, ou ao sentido – os dois termos são para ele intercambiáveis – são pouco importantes . (2)

O modelo de inscrição da experiência proposto por Kandel reconhece suas fontes em Pavlov, mas ele o generaliza pela noção de associação contingente proposta por Léon Kamin em 1969. Do mesmo modo, o sinal de angústia freudiano diante de um trauma lhe parece perfeitamente explicado por Pavlov e o papel da amídala na regulação da angústia permite dar conta do tratamento da angústia pós-traumática. Tudo o que se refere à perda do objeto tem sua tradução no funcionamento de um sistema mecânico fora do sentido.

Esta tradução dos processos subjetivos em termos de rede neuronal como tratamento da memória é inaceitável. Como dizem Bennett e Hecker « é tentador pensar que as diversas formas nas quais se manifesta a recordação são todas devidas ao fato de que aquilo que é lembrado está registrado e armazenado no cérebro. Mas isto não tem sentido. O que se lembra, quando se lembra de uma ou outra coisa, não é de nada depositado em traços no cérebro, mas sim algo que primeiramente aprendemos ou experimentamos. O que os neurocietíficos devem descobrir são as condições neuronais da lembrança e os concomitantes neurológicos da lembrança... a expressão de uma recordação deve ser distinguida das configurações neuronais, quaisquer sejam, que condicionam a lembrança daquilo que uma pessoa se lembra. Mas essas configurações não são a memória : tampouco são representações, descrições ou expressões do que é lembrado » . (3)

Na fase clássica de seu ensino, Lacan tratou o inconsciente freudiano como memória. Ele imediatamente deduziu os circuitos de impossibilidades que essa memória engendrava. Ele também fez do Inconsciente um circuito não de conhecimento, mas de engano. Enfim, em seu último ensino, o Inconsciente é definido como uma forma de saber que age sobre o corpo do ser falante, o parlêtre, através de uma ausência.

« Eu digo, eu, que o saber afeta o corpo do ser que não se faz ser senão de palavras, este de repartir seu gozo, de assim lhe recortar até produzir as quedas de que eu faço o (a). » (4)

Não é a partir de representações dos acontecimentos ou do armazenamento da memória desses acontecimentos que o gozo do corpo se produz. É uma memória que não passa por traços. Ela age pela ausência de traços. A castração assinala essa ausência pela impotência a alcançar um gozo pleno.

« O que pensa, calcula e julga, é o gozo, e o gozo sendo do outro, exige que a Una -aquela que, do sujeito, faz função - seja simplesmente castrada, ou seja : simbolizado pela função imaginária que encarna a impotência, ou, para falar de outro modo, pelo falo. Na psicanálise, trata-se de elevar a impotência (que dá razão ao fantasma) à impossibilidade lógica (aquela que encarna o real).» (5)

Como nossos teóricos da cognição, Lacan confia no fora de sentido e desconfia do sentido. Mas o faz ao avesso das construções especiosas deles sobre a representação e seu armazenamento. Trata-se do lugar da perda e de seu reencontro, ou tuchè.

« Quando o espaço de um lapso não tem mais nenhum sentido (ou interpretação), só então se tem certeza de estar no inconsciente. Isto se sabe. Mas basta dar atenção a isto que se sai dele. Não há verdade que, recebendo atenção, não minta.» (6)

O plano Kandel é endossado pela corrente mais científica da IPA que, de sua parte, não é um meio homogêneo. As três correntes na psicanálise, a cientista, a humanista e a tradicionalista, identificadas por Jacques-Alain Miller em conferência pronunciada no último congresso da AMP em 2004, são encontradas lá em todos os níveis. Parece, entretanto, que a corrente cientista foi aquela que assumiu a direção de uma reforma profunda do dispositivo institucional da psicanálise. Três decisões políticas tomadas recentemente pelo executivo central ou com seu acordo vão neste sentido. Nós as examinaremos nessa perspectiva.

1/ Transferir a formação dos psicanalistas à universidade : criação de um diploma de psicanálise

Nossos colegas da EOL, em 12 de maio de 2005, remeteram-nos o texto do decreto de aprovação da criação de um « Instituto universitário pela psicanálise e a saúde mental », como iniciativa da Associação Psicanalítica de Buenos Aires (AP de BA).

O texto desse decreto constitui um primeiro caso mundial. Transforma o título de psicanalista atribuído por uma associação em título universitário. Os promotores dessa iniciativa estão conscientes disso. « A novidade do novo Instituto é que o curso de formação psicanalítica que a AP de BA oferece já há quase trinta anos, e que responde às exigências da Associação Psicanalítica Internacional (análise pessoal, supervisão e seminários), terá uma certificação universitária e se constituirá em um diploma de especialização em psicanálise. Este ponto merece ser sublinhado porque a credibilidade universitária desses critérios de formação psicanalítica constitui uma novidade em níveis local e internacional ». Esta política é, portanto, aquela do plano Kandel : reintegrar formação e pesquisa psicanalítica nos quadros universitários.

2/ As estatísticas do DSM e a política do sujeito

O prof. Cláudio Eizirik, presidente eleito da IPA, ao responder a questões postas pela Revista Latino-americana de Psicopatologia Fundamental, em agosto de 2004, definiu a política da IPA em relação ao DSM. « A pretensão dos sucessivos DSMs de serem ateóricos revelou-se uma ilusão. Nós devemos rediscutir todo o sistema de classificação, porque observamos uma tentativa de maestria que resulta no empobrecimento da clínica psiquiátrica. De fato, pretender fazer diagnósticos de quadros complexos, muitas vezes acompanhados de co-morbidades, somente com os manuais diagnósticos internacionais, sem considerar nem a psicopatologia, nem a história natural da doença, nem as múltiplas variáveis em jogo, conduz a uma prática cada vez mais pobre, reducionista, que leva a opções terapêuticas, sobretudo, medicamentosas. Aos cinco eixos do DSM é, portanto, necessário acrescentar um sexto, sobre os aspectos psicodinâmicos, a relação transferencial, em suma, uma dimensão subjetiva que vocês mesmos valorizam.

A IPA se posiciona em favor da revalorização subjetiva do diagnóstico psiquiátrico, e, mais que isto, está ativamente engajada em uma iniciativa da Associação Psicanalítica Norte-Americana para discutir os sistemas atuais de classificação e propor modificações nesse sentido. Nosso atual presidente, Daniel Widlöcher, como numerosos colegas europeus e latino-americanos, está implicado nessa atividade » . (7)

Esta política parece, então, inspirada pelo louvável esforça de reintroduzir um eixo de processos intersubjetivos na classificação internacional. A verdadeira aposta, nessa tentativa, aparece no contexto estabelecido em estudo de Philippe de La Sagna : « O boom, hoje, não está mais no campo das doenças intra subjetivas, mas sim dos transtornos intersubjetivos : personnality disorders, relationnel disorders. Michael First, que dirige a preparação do DSM V, escolheu esse domínio... Os Personnality Guided CBT não visam mais a mudar os comportamentos, mas sim os atributos da personalidade e seus modos de reações » . (8)

A batalha entre orientação TCC e psicanálise vai ser travada aí. A IPA vai tentar obter um eixo que meça a dimensão intersubjetiva, como Kernberg havia negociado a existência do eixo II do DSM, permitindo salvar os « transtornos de personalidade » ! O eixo VI do DSM V terá o mesmo destino que o eixo II do DSM IV. Uma derrota será anunciada como vitória, porque a retórica do TCC terá, de antemão, imposto uma visão mecânica e facilmente calibrável ao eixo em seu conjunto, de acordo com a retórica cognitivista. Isto conduzirá aos mesmos impasses que o eixo II e não servirá em nada para impedir o que o DSM V, na verdade, visa : o avanço de uma clínica simplificadora, do medicamento e da ‘medicina baseada em evidências’.

3/ As alianças universitárias e a IPA

A tese da corrente universitária da IPA é clara : será preciso fazer aliança com as psicoterapias cognitivo-comporamentalistas para constituir uma fronte unida contra a indústria farmacêutica e a clínica do medicamento. Na França, as alianças para implantar um ensino de psicopatologia mostram isso bem. Um artigo recente evocava a exigência, feita em negociações com o Ministério da Saúde, de uma « formação teórica e prática de psicopatologia clínica, que seria ministrada, por dois anos, para a Universidade... » . (9)

Nossa política consiste a não preferir, de modo algum, a aliança com a corrente cognitivo-comportamentalista sustentada pelas faculdades de psicologia e medicina. É uma política de tolo. Ela leva a resultados que nós já conhecemos na França. Os diplomas universitários em dois anos (DU) já são organizados pelas faculdades de medicina e formam « psicoterapeutas » pouco qualificados, « acompanhantes em saúde mental » (10). Nossa aliança com os partidários da corrente relacional se faz tanto na universidade (corrente do SIEURP de Roland Gori) quanto fora dela (a coordenação Psy).

Nos países do Norte, onde a psicologia é inteiramente cognitivo-comportamentalista, será preciso definir uma estratégia de aliança original, o judô com os TCC, como dizia Jacques-Alain Miller em sua alocução no Congresso da NLS, em Londres, em 22 de maio de 2005. Será útil estudar a multiplicidade de correntes dos TCCs. O marketing de massa dessas « terapias » apresenta incoerências que será preciso trazer à luz.

Nos países de língua romana e na América Latina, devemos perseguir nossa estratégia considerando o desenvolvimento da situação das práticas de psicoterapias relacionais.

Conclusão

O projeto Kandel ou a neuropsicanálise é uma tentativa suplementar de utilização do discurso da ciência para « fazer falarem as coisas » (11). Quanto às orientações escolhidas pela IPA, nós estamos « deslocados » - na expressão de Jean-Claude Milner - sobre os três pontos que examinamos.

Nós ensinamos o que é possível ensinar nas fórmulas para universitários, como fazem os Institutos do Campo Freudiano, mas nós não remetemos a formação do psicanalista à universidade.
Não se trata de negociar um eixo de intersubjetividade no DSM, mas de dizer que a tomada em conta da intersubjetividade é incompatível com o projeto DSM em si. Enfim, a aliança com as psicoterapias relacionais, dentro e fora da universidade, deve ser claramente expressa. Nós devemos também permanecer atentos à rápida evolução das práticas de psicoterapias e encorajar as correntes relacionais propriamente ditas. As associações como o « Interco-psico » e os « psychologues freudiens» nos ajudam a seguir essas evoluções.

Eric Laurent
19 de julho de 2005
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(1) Kandel R, Biology and the future of Psychoanalysis : a new intellectual frame work for psychiatry revisited, in American Journal of Psychiatry, abril 1999, no 156, p.506
(2) op.cit, p. 509
(3) Bennett M.R, Hacker P.M.S ; Philosophical foundations of neuroscience ; Blackwell Publishing, 2003, p.170.
(4) LACAN J., Autres écrits, Ed du Seuil, 2001, p 550.
(5) Id, p 551.
(6) Id, p 571.
(7) Revista Latinoamericana de Psicopatologia fundamental, Entrevista com o Prof. Dr. Claudio Laks Eizirik, ano VII, n.3, set/2004, p 164. Agradeço a Jorge Forbes por ter me indicado esta referência.
(8) Philippe La Sagna : Les impasses à venir des TCC, texto apresentado na reunião dos Conselhos das Escolas Européias sob a égide da AMP-Europe, em 22 de junho de 2005.
(9) Le ministère de la santé veut confier à l’Université la formation des futurs psychothérapeutes, artigo publicado no jornal Le Monde domingo, 10 – segunda-feira, 11 de julho de 2005, redigido por Cécile Prieur, pp 8.
(10) Id.
(11) Milner J-C, La Politique des choses, Navarin Editeur, 2005.