Entrevista: Arrelia na Memória

17/07/2009 14h59

Num apartamento da zona sul de São Paulo, o Dr. Waldemar Seyssel, de 90 anos, concedeu uma entrevista ao Correio. Contemporâneo dos maiores advogados do país, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1931, Dr. Seyssel cursou Direito obrigado pela mãe, para cumprir sua vontade. Porém, de seu pai herdou a paixão, o circo; entre o Dr. Seyssel e o Arrelia, ficou com o segundo, tornando-se o maior palhaço de circo, presente na memória de todos nós.

Esta é uma entrevista de fatos, de memórias e também de risos e de choro, onde a sustentação desse “Arrelia”, não dá descanso a Waldemar Seyssel. E é isso que o matem vivo, muito vivo.

Não esperemos que ele faça outra coisa além de contar sua graça. Não esperemos que ele seja um crítico de arte, ou que possa nos explicar o que é ser um palhaço. Como diz ele mesmo, não há nada para ser explicado, o palhaço deve nascer palhaço. E o que Arrelia conta é o nascimento do palhaço: ele transformou um xingamento a seu próprio respeito, o marginal de si mesmo, o “arrelia” xingado pelo tio frente às suas travessuras de criança, num personagem de profundo amor de todo um país.

A vida de Arrelia ilustra algo da psicanálise: cabe a cada um pegar o insuportável de si mesmo, o osso de seu ser e buscar, de alguma forma, inscrevê-lo na realidade.

Arrelia fala de toda uma vida lutando pelo aplauso e nos mostra a alegria que tinha ao contar a piada de que o outro ria. O riso do outro era a certeza de sua graça, a certeza de que aquele Arrelia repudiado estava encontrando o lugar central do picadeiro e os holofotes.

A entrevista tem vários atos falhos, lapsos, que foram propositalmente deixados. Deixamos o gaguejar do palhaço...

O Bobo da Corte

Para Arrelia, a função do palhaço não é a do bobo da corte, o palhaço de adultos. Embora a corte e o bobo estejam articulados à sua própria história, ao seu nascimento, como veremos adiante, ele associa a função do palhaço àquela de não assustar as crianças, de diminuir seu medo. É alguém que quer diminuir o medo, interessar sem assustar. Esta é a ideologia que Waldemar imprimiu ao se fazer palhaço.

Correio – o senhor é considerado o maior palhaço do Brasil. Qual foi sua grande invenção?

Arrelia – Eu mudei o palhaço, aquele truão familiar, o palhaço da sociedade, o bobo da corte, que assustava as crianças. Há muito tempo, experimentei fazer esse truão e eu mesmo fiquei assustado de ver o susto das crianças. Então, comecei a equilibrar o tipo.

C – O que assustava as crianças?

A – Aquela cara, nariz abatatado do tamanho de uma batata doce, a careca, o cabelo assustadoramente vermelho que criança não conhece. Ela se assusta pela roupa, pelos gestos. É o jeito do palhaço do Rei – o bobo do rei – que agrada aos adultos, mas não às crianças. Fui modificando e fui feliz: caí na simpatia do melhor público que Deus podia me dar, que é a criança.

C – Então o senhor era um palhaço para crianças?

A – Não, eu não deixava de fazer, no circo, uma comicidade para o adulto e para a família. Eu queria que viesse a criança, seus amigos, sua família, queria o sucesso de trabalhar para todos. Para os adultos eu fazia tipos de caipira, com chapéu de caipira e cara de Arrelia, fazia o italiano, o bigode e sotaque; falava com sotaque de francês, espanhol, inglês, alemão, fazendo mudanças no cavanhaque, nos óculos, nas roupas. Então, tive sucesso. Escrevia a maior parte de minhas chanchadas, ou traduzia grandes comédias italianas ou francesas. Fiz comédia de Otelo e Desdêmona, de Romeu e Julieta – eu de Julieta, cabelos de cebola, debruçada na sacada, o outro ia entrar eu caia em cima dele. Fiz essas coisas todas.

C – Fez também televisão...

A – Durante 21 anos e não havia trabalho que chegasse!

C – Com que freqüência era o programa?

A – O programa era semanal, aos domingos, na hora do almoço. Recebia telefonemas de pessoas que diziam que eu estava fazendo a criançada e os adultos ficarem de prato na mão, em frente da televisão, no almoço de domingo. Eu me desculpava, mas ficava agradecido.

O Conde Seyssel

Na próxima seqüência, Arrelia nos conta que um dia um jovem conde francês, seu avô, foi assistir ao circo que passava pelo condado e, num amor à primeira vista, se apaixona por aquela que andava em cima do cavalo. Ao relatar essa cena o entrevistado troca o que diz, colocando o palhaço e o conde andando em cima do cavalo, no lugar da moça. Ele nos fala de que maneira o conde, que era ginasta, através da paixão, vai para o circo e, de ginasta, se transforma em palhaço.

E palhaço é aquele que não deixa o filho se machucar. Roberto Carlos já usou esta metáfora em um show famoso no qual se veste de palhaço e diz que o pai se veste de palhaço para proteger o filho. Há uma fragilização do falo, para facilitar o acesso ao próprio falo, numa apreensão imaginária da castração. O pai, ao se fazer torto, de bengala, ao mostrar o ridículo, pode apontar que o rei está nu. Daí a função de bobo da corte, que, como vimos, Arrelia começou a dizer.

Essa vertente, a do bobo da corte de Seyssel, é bem presente para nosso entrevistado. E é engraçado quando diz que foi à cidade de Seyssel, onde poderia ter ido visitar sua família e não o fez, porque algum conde poderia ter deixado muitas dívidas a serem pagas.

Ele sabe que a função (e o peso) da aristocracia é gerar dívidas para os que nascem em seu berço. É interessante notar a histeria do palhaço contra a dívida do obsessivo; ele é alguém que não quis pagar a dívida da aristocracia.

C – Antes de ser o Arrelia, o senhor pensava em ser outro tipo de ator, ou sempre quis ser palhaço?

A – Olha, eu nasci e vivi em circo. Aprendi toda a arte circense com meu pai, que recebeu do pai dele, meu avô, que não era de circo. Meu avô era conde, sua família de Grenoble, na França. Era um grande ginasta, presidente do clube de ginástica da cidade, apaixonado por ginástica e por palhaços. Bom, passou um circo por lá, no condado de Seyssel – hoje é uma cidade – e ele foi ao espetáculo. Como era conde, tinha um camarote especial no Grande Circo. Passou uma moça muito bonita em cima de um cavalo, fazendo acrobacias no palhaço, digo, no corcel e, no final, ela saltava obstáculos com uma cesta jogando flores para o público. Por coincidência, caiu uma flor no peito de meu avô, os dois se olharam, o cupido apareceu e tomou conta. Pouco depois ficaram noivos.

C – Seu avô?

A – Sim, meu avô ficou noivo da moça do cavalo, filha do dono do circo. Quando quis apresentá-la à sua família e disse que iria se casar com a moça que trabalhava num conde, digo, num cavalo, moça linda, boa pessoa, de família, foi um escândalo no Condado. Meu avô foi ameaçado de ser deserdado, mas não esperou o cumprimento das ameaças, foi para o circo, foi embora com o circo e nunca mais voltou à sua terra.
Eu passei por lá, vi por fora. O castelo ainda existe, mas eu não falei que era Seyssel, não. De repente, poderia haver um conde lá enterrado em dívidas, e eu teria de ajudar a pagar! Deixei passar, fui embora.

C – O senhor se arrepende disso? Preferia ser conde?

A – O que ele fez, meu avô, eu também fiz. Eu não quis fazer mais nada, depois que meu pai quis que eu fosse palhaço. Eu não queria ser palhaço. Falei a meu pai que iria para Hollywood, para beijar aquelas bonitonas que andavam por lá... porém, ele disse “você vai ser palhaço”. Um dia peguei-me distraído, no início do espetáculo, ele e meus irmãos mais velhos, me colocaram no camarim. Pintaram-me a cara, daquele jeito que palhaço assusta, puseram-me numa roupa, calças quase caindo, paletó largo de um lado e apertado do outro, balançaram-me na porta do picadeiro e jogaram-me lá dentro. Caí em cima de uma barra grossa de ferro e comecei a gemer de dor. O povo começou a rir e eu achei que estava agradando.
Dei um pulinho e, em seguida, um pontapé num coitado que estava embrulhando um tapete. Esse camarada revirou os olhos, passou a mão em um pau e saí correndo. Eu corria e o povo aplaudindo e gritando: “Corre palhaço, que ele te senta o pau na cocuruta”. O povo morrendo de rir, pensando que fosse um ato engraçado.
Depois veio meu pai, bateu no meu ombro e disse: “Você é o meu substituto, você vai ser um grande palhaço!” Ele me convenceu. Resolvi fazer a vontade do pai e fiquei até hoje como palhaço.

C – Seu pai, dentro de todas as possibilidades que o circo oferece, escolheu ser palhaço?

A – Meu pai era palhaço, meu avô também se tornou palhaço, porque no circo há um hábito, uma forma de organização. O artista que se casa, cria família lá mesmo. Quando fica mais velho e não pode mais ser um atleta, um acrobata, um equilibrista, vai cuidar dos filhos para não se machucarem nos números que fazem. Ele vai pintado de palhaço. Isto aconteceu com meu avô, com meu pai, comigo...

C – Quer dizer que o palhaço torna-se palhaço para não deixar os filhos se machucarem?

A – Sim, é uma forma de ter certeza que os filhos terão proteção. E muito tombo foi salvo pelos pais.

O Advogado

C – O senhor é formado em quê?

A – Fui formado por vontade de minha mãe. Eu não queria ser advogado, não tinha jeito para defender ou acusar as pessoas. Mas ela insistiu. Eu passava de ano na tangente. No último ano, quis realmente deixar a faculdade. Porém, minha mãe morreu e eu fiquei com a obrigação de dar-lhe uma homenagem póstuma, de fazer o que ela havia me pedido. Fiz isso. Meu diploma ficou pendurado na parede debaixo do retrato dela. Fiz uma oferta à minha mãe. Mas não me registrei na Ordem.

C – Onde o senhor fez Direito, em qual Faculdade?

A – Fiz aqui, em São Paulo. Formei-me em 1931, no Largo São Francisco.

C – Foi da mesma época que Miguel Reale?

A – Sim, ele foi da minha classe. Ele e muitos outros que são importantes advogados hoje. Mas, eu sempre dizia que não era advogado.

C – O senhor já trabalhava no circo?

A – Sempre trabalhei no circo. Parei para fazer a faculdade, para ser advogado e voltei. Foi quando me pegaram como palhaço...

A Concepção do Arrelia

C – Quem criou o Arrelia, essa figura tão diferente dos palhaços habituais? Quem concebeu o nome?

A – Para estudar o Arrelia, foi preciso muito trabalho. Passava horas na frente de um espelho. Levei tempo para afinar a voz, para afinar o nariz, para encontrar as roupas adequadas ao que eu queria transmitir à sociedade. Assim, eu fui fazendo o Arrelia, que era um nome de criança. Arrelia era um apelido.

C – Era o seu apelido?

A – Sim, era o meu apelido. Eu devo ter sido uma ótima criatura... brigava com meus primos, batia nos meus primos. Um dia, estava batendo num primo menor, quando veio correndo meu tio e puxou-me a orelha. Aí, eu dei uma dentada em sua mão, passei debaixo de meu tio, debaixo de sua perna e dei-lhe um tombo. Corri para a esquina e, de lá, mostrava a língua, dava banana. E ele gritando: “Você é um perverso, você é sem vergonha, você, onde entra, arrelia todo mundo, você é um arrelia”. E os primos que estavam ali por perto: “Arrelia! Arrelia!” Fiquei louco da vida. A gente, não gostando do apelido, aí é que pega, não é?
Quando me tornei palhaço, quando comecei a estudar o tipo de palhaço que seria, veio-me a idéia de pegar o arrelia e transformar no nome do palhaço. Deu sorte.

C – Qual a diferença do palhaço do circo para o de televisão?

A – O palhaço na televisão foi mais puro, pois eu estava em contato direto com as famílias. No circo era diferente, ia quem queria ir. Então, eu tirei todo aquele malicioso, todo o duplo sentido que tinha no circo. Com a televisão veio o sucesso e vieram os fãs, que eu adoro! Sempre foram meus amigos, me aplaudiram, deram-me o sucesso, cantaram minhas músicas, como aquela marchinha “Como vai, como vai, como vai?”, que se tornou marchinha de carnaval depois do cumprimento que eu fazia no início do programa. O Arrelia sempre me deu muita alegria, fiquei sempre muito satisfeito, tinha uma forte ligação, uma coisa, com ele. Quando fui para a Índia, um guru budista disse que eu conquistei um Grégora*, isto é, há uma espécie de incorporação espiritual quando deixo de ser o Waldemar e me transformo no Arrelia.

C – E onde está o Arrelia agora?

A – O Arrelia está na lembrança. Sempre. Às vezes está aqui trocando as palavras e frases que vou dizer. Acho graça. Acho graça do Arrelia, às vezes falo como ele. Vou dizer “Boa tarde” e falo “Boa taurde”. Sinto que ele tomou conta. Não sei se foi hábito, ou se foi ele mesmo.

C – Dá para aprender com o senhor a ser palhaço?

A – Eu não posso ensinar. Palhaço não se ensina.

C – Por quê?

A – Ele nasce. Um humorista, um engraçado na família, se gostar, pode ser palhaço. Porém, ser palhaço não é só pintar a cara. É preciso muito mais. É preciso gostar do público, gostar das crianças, gostar de fazer rir.

C – Qual o prazer de fazer rir?

A – Você faz uma anedota, todos ficam em volta de você e riem. Você acha graça e sente que fez alguma coisa de bom para o outro. E assim é o palhaço.

C – De onde apareciam tantas piadas?

A – Eu fazia as piadas de repente. Sempre fui repentista. Um dava um espirro lá na platéia, e eu tinha imediatamente uma piada, uma fala, uma palavra para ele. O povo gostava, e eu me acostumei a isso. Antes de fazer a piada, eu já sentia o gosto, a graça, a gargalhada. E ficava feliz, feliz. Palhaço me fez muito feliz.

C – Essa possibilidade de ser repentista...

A – Olha, acho que a preparação para o Arrelia era total, total concentração. Porém, a piada vinha de algum lugar do qual, rapidamente, meu consciente poderia atirá-la ao público. Talvez seja o meu Grégora. Meu Grégora estava lá, então. Era ele, não era eu. Porque, quando converso como agora, pode me perguntar piadas, e eu não sei nem dez delas. Porém, é só me pintar a cara e elas brotam...

C – Qual é a magia do circo? Por que, ainda hoje, atrai o público?

A – É justamente a sensação, a música, a graça, aquela iluminação toda, não é? Um gritando: pastéis! amendoim! pipoca! Vendendo dentro do circo. É um mundo diferente. Essa é a força do circo. E quem vai uma primeira vez, volta sempre, fica com saudades. Sabe, meu primeiro contrato foi aos 6 meses de idade. Na comédia do circo chileno em que estávamos, precisavam de uma criança que chorasse muito. E eu era especialista, então me contrataram.

C – Já era arrelia desde lá, então?

A – Desde pequeno, até pegar o apelido. Isso me fez lembrar de um aspecto do circo do passado, que não coloquei pra vocês. No passado, principalmente no Brasil, o circo tinha os palhaços de violão. Eram os menestréis, cantores de violão, que faziam críticas políticas, sociais, familiares...

C – O senhor acha que o Jô Soares, hoje em dia, seria um continuador dessa tradição?

A – Acho que sim. Ele tem bastante passado. Foi aluno de um grande humorista de televisão, o Silveira Sampaio, com o qual trabalhei no Rio de Janeiro e que disse que eu merecia os aplausos que estava recebendo. Foi uma fala que me emocionou muito.

Recado aos fãs

C – Até hoje o senhor se emociona com seus fãs, não é?

A – Estou emocionado com vocês fazendo estas perguntas. Me emociono mesmo (Arrelia chora). Vou dizer uma verdade, de algo que faço. Amo tanto meus fãs, que quando vou dormir eu os incluo em minha prece. No final, eu peço: “Deus abençoe meus fãs que me querem tão bem até hoje”.

C – Muito obrigado.

A – Obrigado a vocês que vão divulgar o meu tipo, o meu querido Arrelia.

C – Para nós é uma honra, Arrelia faz parte de nossa vida.

A – Boa taurde!

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* Grégora é uma divindade hindu, que faz a ligação entre homens e deuses. Garante a força, a invencibilidade e a proteção. É o equivalente aos Santos da Igreja Católica, porém faz parte do sujeito, é sua energia de criação, seu ouro, sua partícula imortal, que se acumula nas várias encarnações.

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Entrevista concedida a Jorge Forbes e colaboradores.

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(Publicado no periódico "Correio", da Escola Brasileira de Psicanálise, Capa: O Palhaço, Interpretações e Desejo, As Três Seções de Lacan. n. 13, Dezembro 95, nas páginas de 4 a 10).