O extermínio dos intrusos – Sinopse da Conferência de Jorge Forbes

17/07/2009 14h08

Colóquio: Os Nomes do Pai – Religião, Cultura, Literatura e Clínica

Conferência de Abertura - EBP/SP – 8/4/2006

Jorge Forbes fez a conferência de abertura do Colóquio, com o tema: “O extermínio dos intrusos”. Dividiu sua apresentação em três partes: o fundamento, a questão e um exemplo clínico.

I) O fundamento

Cita, para começar, um trabalho desenvolvido há 18 anos: Os caminhos lógicos da psicanálise – O Nome Próprio, onde mostra a diferença do fazer do médico e o fazer do psicanalista, em relação ao mal-estar do paciente. Como o médico nomeia quando o paciente se queixa? Ele transforma o que o paciente diz num vocabulário e o acomoda, e de certa forma o conforta, o nomeia.

A medicina dá um nome confortável à dor do paciente, um nome que “acomoda”. O médico nomeia, diz quem é o paciente. Nesse trabalho Jorge Forbes antepõe o nome confortável que a medicina dá à nossa dor, ao nome desconfortável que a psicanálise dá.

Uma pessoa vai para uma análise da mesma forma que vai ao médico, quer saber quem ela é, qual a sua justa ação. E quanto mais análise uma pessoa faz, menos ela sabe de si; quanto mais fala do seu nome, mais se sente estranha a ele. Quando uma pessoa sai da análise, ela sabe o seu nome, mas não sabe o que ela tem a ver com esse nome, porque numa análise esse nome é sem-referência, é uma nomeação. Não basta falar nesse nome, é necessária uma ação sobre ele, uma nomeação, o que leva Lacan a dizer da necessidade de fazermos uma clínica da nomeação.

A nomeação obedece aos preceitos da lógica e temos que diferenciar uma lógica referencial de uma lógica sem referências. A lógica referencial é a lógica dos predicativos, que adquire a significação do contexto, de tal forma que, se muda o contexto, muda também o nome; é a lógica das psicoterapias. A lógica sem referências não depende do contexto, não muda com cada um, em cada sessão; essa lógica é chamada de designador rígido ou Nome Próprio – nome que designa a mesma coisa em qualquer mundo. O Nome Próprio não se altera conforme o mundo, ele faz silêncio nas frases que busca uma significação. O Nome Próprio é o nome do silêncio. É também o nome do estranho, ou do sinistro. Fazer uma análise é a possibilidade de nomear e legitimar as exceções, é a possibilidade de suportar a existência de um intruso no mundo, a existência de um estranho.

II) A questão

“O extermínio dos intrusos” não é um tema de uma certa política, de uma certa disputa, de um certo problema que se passa na EBP. Nem idade, nem análise, nem pactos defendem pessoas de falarem, escreverem e fazerem besteiras. Isso está sendo tratado na Escola e na sessão SP através de uma moção, alerta Jorge Forbes.

Volta a Freud, para desenvolver este segundo ponto, no texto “Responsabilidade moral pelo conteúdo dos sonhos”, extraído de “Algumas notas adicionais sobre a interpretação dos sonhos”. Nesse texto Freud deixa claro que não basta tentar, temos que nos responsabilizar pelos nossos sonhos.

Jorge Forbes esclarece que a Responsabilidade é um termo que lhe é caro há muito tempo. A meu ver, diz ele, a Responsabilidade é o mais importante tema da psicanálise e parece fundamental que o Nome Próprio seja um designador rígido, não tenha nenhuma garantia que ele esteja vinculado a uma pessoa, a não ser um ato de responsabilidade, uma justificativa referencial. Quando alguém diz: _ Fiz isso por causa daquilo, é uma forma de estabelecer uma referência e se ausentar de uma responsabilidade. O Nome Próprio descompleta qualquer série, é uma exceção, tem a ver com a falta de lógica no real.

Esse Nome Próprio que descompleta essa séria tem a ver com o teorema de Göedel, o teorema da incompletude, que Jorge Forbes também trata em seu texto que citou no início de sua fala. Por maior vontade de provar uma verdade, existe sempre uma sentença que poderá ser verdadeira, independente da prova. Isso mostra a diferença entre verdade e certeza. A psicanálise não tem a ver com a verdade, tem a ver com a certeza, que está além da verdade. E essa certeza além da verdade está fora, distante de todo nome acomodativo da medicina e da própria psicanálise. O teorema de Göedel ajuda a refletir sobre um novo tipo de responsabilidade.

Retornando ao texto de Freud “A responsabilidade moral pelo conteúdo dos sonhos”, vemos que ele nos diz que temos que nos considerar responsáveis pelos impulsos maus dos próprios sonhos; ele faz parte do nosso próprio ser.

Análise não é vacina para ninguém. Lacan trabalhou bastante esse aspecto. Ao retornar de Marimbad, Lacan dá a mão a um nazista, a um ser repugnante, que só poderia ser alguém que tivesse feito análise, diz ele. Põe em questão essa esperança de salvação, como se a análise pudesse funcionar independente de uma responsabilidade. O mau, no texto de Freud, não é necessariamente ruim, diz respeito àquilo que não entra na nominação referencial; o que não entra no narcisismo do grupo é visto como mau.

III) Um exemplo clínico

O exemplo clínico trata de uma apresentação de pacientes feita por Jorge Forbes num hospital psiquiátrico. Lê um texto explicativo sobre apresentação de pacientes e lê também uma carta aberta do CFP afirmando uma posição contrária à apresentação de pacientes. Forbes argumenta que esse encontro único do paciente com o analista é uma situação especial em que o paciente é tratado como sujeito, fazendo uso de uma frase de Lacan: “Je le panse, cést à dire, je le fais panse, donc je l’essuir”.

Há muita gente que se vale da análise, de uma análise psicoterápica como uma nomeação, um curativo. É isso que a isso se resume. É o sexual que mente lá dentro de muito se contar. Ou seja, a sexualidade não admite curativo.

Sinopse de Teresa Genesini