Um flash da Conversação Clínica

16/07/2009 15h19

A Psicopatologia da Vida Contemporânea: Sinopese da Conversação Clínica

por Claudia Riolfi

A elaboração de questões para subsidiar a renovação da práxis psicanalítica tendo em vista a atual psicopatologia da vida contemporânea foi o principal resultado da intensa discussão a respeito de dez casos clínicos selecionados para a Conversação Clínica que reuniu os membros do Projeto Análise e os do Corpo de Formação do Instituto de Psicanálise Lacaniana de 6 a 9 de dezembro em São Bento do Sapucaí – SP.

Concluímos que participar de um evento desta natureza vale o esforço que demanda porque submeter a clínica à lógica coletiva implica cada qual na busca para dar conseqüência às lições geradas a partir da teorização de cada uma das análises revisitadas na plenária. Concluímos, também, que não é exagerado dizer, portanto, que fazer parte de uma Conversação altera a relação do psicanalista com o saber; o torna ainda mais curioso e permeável com relação ao que se pode colher em nossa práxis.

Como isso acontece? Uma Conversação gera trabalho e, este, por sua vez, causa movimento. Assim sendo, a seguinte descrição servirá de resumo para o que ocorreu ao longo do trabalho. Das mudanças sociais, alterou-se a clínica. Da alteração deste fazer, criou-se uma necessidade inédita para os psicanalistas. Da aceitação deste novo imperativo, nasceram questões para balizar o norte da pesquisa ao longo de 2008. A título de exemplo, no que se segue destaco quatro pontos para ilustrar as transformações que venho de descrever.

CONSIDERANDO:

  1. o impacto gerado sobre as formas por meio das quais o sofrimento se apresenta na contemporaneidade pelas transformações na sociedade e na ciência, especialmente a biologia-genética, impôs-se a necessidade de reinventar uma psicanálise que, originariamente, no início do século XX, foi inventada em um diálogo com a Física;
  2. o estudo dos efeitos do tratamento psicanalítico nos sujeitos que sofrem de um gozo de algum modo vinculado à doença causada por um gene defeituoso, impôs-se a necessidade de conseguir mostrar as mudanças concretas – inclusive em relação ao ritmo de instalação da lesão – que ocorreram em todos os casos pesquisados na Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano – USP, tratados por uma psicanálise baseada na “clínica do Real”, de Jacques Lacan;
  3. o acirramento das tentativas moralistas para tentar estabelecer correlações inquestionáveis entre uma mutação física qualquer e a presença de um determinado traço de caráter ou de um modo de comportamento, impôs-se a necessidade de interpretar, desde a psicanálise, os dispositivos diagnósticos que tornaram a materialidade do corpo humano bem mais visível para o médico bem como os efeitos gerados pelo seu uso irresponsável;
  4. a proposta de Jacques Lacan de substituir o mito do Édipo pelo nó borromeano, como dispositivo de leitura de um caso clínico, se verifica na produção artística contemporânea que coloca em cena personagens que padecem da impossibilidade de escolher (sua posição sexual, o destino a ser dado aos seus talentos, o parceiro, etc) como objeto de análise.

Aceitando os imperativos que os casos clínicos geraram para a reflexão dos presentes, abriu-se um segundo tempo, durante o qual cada qual se sentiu convocado para produzir respostas às questões que são geradas por eles. Dessa forma, continuo o relato, explicitando as interrogações que foram geradas a partir do que pudemos apreender das mudanças da psicopatologia da vida contemporânea. Trata-se de um plano de vôo.

AGENDA:

  1. a eleição da genética como parceira privilegiada para o diálogo, conversa esta que foi exigida pelas especificidades dos casos que escolhemos discutir, que forma tomará a ética da psicanálise?
  2. a formalização desta práxis diferenciada que tem se configurado como um lugar de reconstrução da capacidade vital de uma invenção responsável que se segue após um diagnóstico qualquer recebido na natureza de catástrofe, como transportar nossas principais descobertas para os demais contextos que levam alguém a buscar um tratamento psicanalítico?
  3. a inclusão das modalidades de transmudação do ponto de gozo de cada pessoa no cálculo da evolução de uma dada moléstia, como dialogar com a comunidade científica internacional de modo a mostrar que não existe nenhuma determinação genética que possa determinar o comportamento humano?
  4. a conclusão do registro do que se pôde apreender da psicopatologia da vida contemporânea por meio da leitura de casos de personagens desbussolados que é mostrada no cinema, como construir diálogos com a sociedade, em especial, com aqueles que não tem qualquer tipo de trânsito nos meios “psi”?


São Paulo, dezembro de 2007.