Jacques-Alain Miller com Jorge Forbes - 2 - Entrevista do Momento Atual (continuação)

16/07/2009 15h01

Para o site www.ipla.org.br

Segunda parte desta entrevista, iniciada em Paris, segunda-feira 13 de outubro, no dia seguinte às Jornadas da Escola da Causa Freudiana.

Jorge Forbes: Entendi! Você fala do “retorno ao singular” após o “retorno à clínica”, mas é o “retorno de Jacques-Alain Miller”!
Jacques-Alain Miller: Depois de dizer o que eu disse, não posso subir de volta a montanha, para a minha caverna.

Montanha, caverna?
Aquelas de Zaratustra!
Você ficará na planície, então?
E como! Não dá para ficar brincando de pai morto.
Tudo bem, mas quando a estátua do Comendador começa a se mexer, amedronta...
Você sabe, no Campo freudiano, sempre fiquei mais do lado do Don Giovanni... eu seduzi... eu fiz as listas…
Então, me diga uma de suas “idéias gerais”, para vermos.
Olhe, por exemplo, os subsídios. Sempre tive a idéia geral que era um veneno. Por que? Porque põem você à mercê daquele que tem o poder de conceder ou de recusar. Chama-se isso, em Lacan, « o Outro da demanda ». E é por isso que nem a Escola, nem as Sessões clínicas, jamais solicitam qualquer subvenção.
Então, se é veneno, porque os CPCTs solicitam subsídios?
Começou com o primeiro CPCT, o de Paris, na rua de Chabrol. Eu quis que ele nascesse sob o signo da precariedade e que tivesse que sair à caça dos subsídios. Foi declarado de início que esse CPCT seria financiado a fundo perdido pela Escola, durante dois ou três anos, e que teria, em seguida, de viver dos subsídios que ele conseguisse. Eu o pus deliberadamente numa situação de desamparo e de struggle for life.

Mas por que você fez isso?
Meu raciocínio foi o seguinte. Levando-se em conta a importância do subsídio no processo do reconhecimento social na França, por que não inocular no Campo Freudiano uma pequena dose desse veneno, a título experimental, e também talvez como vacina? Queria fazer isso numa superfície reduzida e bem delimitada, num pequeno organismo que seria colocado em observação, e onde se poderia acompanhar os efeitos desse envenenamento metódico, a mobilização progressiva do sistema imunológico diante da agressão patogênica, a produção dos anticorpos, etc. Eu pretendia, então, um pequeno CPCT, um só. No lugar, tive um grande CPCT, bem gordo, um CPCT bulímico, que hoje se tornou obeso. E daí os CPCTs se multiplicaram. Não é de se admirar que a pressão do Outro social, do Outro da demanda, tenha se tornado cada vez mais insistente. Na verdade, esse Outro tomou as rédeas. Ou, pelo menos, está brigando conosco por elas. E isso acontece na Escola toda, e até talvez na AMP.

Por que você diz a AMP?
Porque houve recentemente um certo colóquio na Bahia, do qual nem Éric Laurent, nem Leonardo Gorostiza, nem Graciela Brodsky, nem eu, soubemos de nada, até sermos informados que se tratava de reproduzir no Brasil esse processo nefasto. Isso não é mais inoculação experimental. É a epidemia em grande escala, a pandemia. É o horror.

Você está exagerando!
Digamos que estou antecipando.

Você fala de « pequeno CPCT », de « grande CPCT », o que isso quer dizer?
Eu tinha pensado em um CPCT com 10, 12, 15 consulentes, no máximo 20, com permutas freqüentes. No da Rua de Chabrol, chegam hoje a 90, ao que parece, e mais ou menos fixos.
Então, eu te pergunto: por que você deixou acontecer?
Primeiro, levei em conta que o edital inicial obrigava esse CPCT a lutar pela vida e era difícil impor-lhe condições extras, de lhe atar uma mão nas costas, por assim dizer. Depois, para mim, era uma experiência, como na química: ajuntamos os elementos, colocamos na posição de agir uns com os outros, e olhamos o que acontece. Uma experiência da qual se sabe de antemão no que vai dar, não é uma experiência. Então, eu estava curioso para ver o resultado, e fiquei parado, hands off. Permaneci assim tempo demais e, desse modo, faltei com meus deveres, pois sou em título o presidente do “comitê científico” do CPCT-Chabrol, comitê que nunca existiu. Eu tinha todos os meios para agir, eu seria ouvido se tivesse falado, não vi nada e não disse nada. A culpa é minha.

Você lamenta?
A reposta imunológica foi diferida, mas está agora desencadeada. Não lamento a experiência, não. Encontramos um verdadeiro filão social, e aprendemos muito, mas a ambição do Campo freudiano de “conquistar a sociedade”, se posso assim dizer, está em via de se inverter: se deixarmos seguir por mais tempo, será a conquista do Campo freudiano pela sociedade. Certo limiar foi ultrapassado. Stop.

“Stop” quer dizer o quê? Você quer parar tudo?
Quero parar a deriva, recolocar no eixo.

Seja mais preciso.
Não quero antecipar sobre tudo o que vamos aprender a partir de agora, sobre tudo o que está começando a surgir.

Assim mesmo, eu acho que você antecipa, que você tem hipóteses.
A respeito dos subsídios, sim. Vamos ter que pôr tudo na mesa, com os números na mão: quais são as fontes de financiamento dos CPCTs? Que uso foi feito desses subsídios? Vamos ter provavelmente que fixar um teto. Além disso, suponho que haja uma diferença entre o fenômeno parisiense e as outras cidades da França, onde, pelo visto, as coisas permaneceram mais razoáveis, mais comedidas. Depois, nas cidades do interior, um CPCT é muitas vezes acoplado, de fato, à Sessão clínica. Um analista em formação exerce no CPCT, mas estuda os textos na Sessão. Será que o mesmo acontece em Paris? Eu faço a pergunta. Será preciso colocar as coisas nos seus devidos lugares: o Outro da demanda, para um CPCT, não são as autoridades políticas e administrativas, é a Escola, é o Campo freudiano. Um CPCT é, antes de mais nada, feito para contribuir com a formação clínica dos analistas em formação, no registro da psicanálise aplicada à terapêutica. Nem mais nem menos. O que serve para essa finalidade é bom, o que a desserve é ruim. O crescimento pelo crescimento, não.

Por que não?

Porque isso nos colocaria na dependência do discurso do Mestre. A psicanálise aplicada se tornaria a correia de transmissão das exigências do Outro social entre os analistas, e isso seria o fim do discurso analítico, corroído desde o seu interior pelo discurso comum. Enfim, minha intuição é que, no que diz respeito aos subsídios, vamos ter que ir devagar com o andor. O CPCT-Chabrol parece-me ser regido por uma palavra de ordem sarkozista, do tipo: “ Trabalhar mais, para ganhar mais – mais subsídios”. Eu gostaria mais de algo como “Menos e melhor”, o “Small is beautiful” de Schumacher. Mas, evidentemente, a questão dos CPCTs é bem mais complexa.

Continua.