Letras Sob o Sol de Parati - Sinopse da IV edição da Festa Literária de Parati

17/07/2009 14h04

Letras Sob o Sol de Parati

Durante cinco dias, pessoas das mais diversas partes do Brasil e do mundo se reuniram em torno da literatura, na bela paisagem de Parati. Uma conquista que permanece. Natureza e cultura, cidade em festa, livros, casas, barcos e mar: quem disse que leitura é costume de ermitão?



Olhando para o passado, onde a sombra se adensa

A política internacional ocupou grande parte dos debates, com inflamadas discussões em torno da supremacia econômico-militar dos EUA, das guerras no Oriente Médio, dos direitos civis das minorias, que conferiram, a essa quarta edição da FLIP, um tom politicamente correto, orientado pela intenção de resolver os conflitos do mundo. Nem sempre, porém, intelectualismo e engajamento político combinam com a literatura.

Para além da política, o recurso ao passado, pelos labirintos da memória e da história, tomou conta da imaginação de muitos autores. Será uma tentativa de ordenar nosso mundo desvairado com velhas referências? Será o refúgio na nostalgia das imagens de épocas perdidas? Ou ainda, a idéia de que é preciso tratar traumas do passado para encaminhar problemas do presente, o velho lema historiográfico?

Muitos seguiram essa via, como a escritora norte-americana Toni Morrison, que, a fim de compreender as conseqüências dos movimentos de contestação pelos direitos civis dos negros nos anos 60 e 70, debruçou-se sobre a história da escravidão e da experiência negra durante o século XX.

Inácio de Loyola Brandão, por outro lado, quis se libertar de “fantasmas arquivados”, e para isso evocou as lembranças de sua cidade natal, Araraquara. O que haverá por trás dessa química perigosa?

Sem temer o vento e a vertigem

A leitura em voz alta resgata a oralidade imanente a toda criação poética. A FLIP valoriza essa experiência, que atinge sua intensidade máxima na leitura de um belo poema. Longe de teorias, frases feitas e literatura sociológica, o poeta palestino Mourid Barghouti leu em árabe trechos de seu poema Eu Vi Ramallah, e o brasileiro Ferreira Gullar apresentou seu Poema Sujo. Ambos foram escritos diante da experiência do exílio. O passado está presente, mas não é aí evocado como recurso de compreensão; são as imagens sensíveis, fora de todo condicionamento histórico. Indagado por Jorge Forbes se os escritores estavam se refugiando no passado para se protegerem da angústia de um tempo sem padrão, Ferreira Gullar foi incisivo: “Não gosto do passado, é inútil. A vida é o presente.”. Mandou, ainda, um recado para os autores mais politizados: quando todos acham que têm razão, o conflito é inevitável.

No tapete de pedras iluminadas pela lua

Em cada rua uma sensação, uma cor, uma música. A sonoridade das palavras lidas se desdobra nas falas das ruas, dos restaurantes, dos cafés, na música de Paulo Moura, Marcos Valle, Yamandú Costa, que estiveram presentes, e de tantos outros instrumentistas e cantores, a acalentar a noite dos leitores.

O som, como a letra, tem algo enigmático. No meio está a lua - e era cheia -, as pedras, o mar, a mata, o silêncio, e a indispensável companhia dos amigos.

Teresa Genesini e Rodrigo Abrantes