Notas Sobre a Conversação de São Bento do Sapucaí

17/07/2009 14h01

Trinta e quatro pessoas, sob a coordenação de Jorge Forbes, exercitaram uma Conversação em todos os sentidos: com a palavra, com o corpo, na sala de trabalho, na mesa de almoço, escalando a Pedra do B,aú, cavalgando, no jogo da velha, discutindo, brincando, cantando, bailando. Três dias intensos, em que “Corpo e Responsabilidade” deram o tom da Conversação.

Na quinta-feira à tarde a maior parte dos participantes – pesquisadores do Projeto Análise, participantes do IPLA e alguns convidados – já haviam chegado e aproveitaram a beleza da região de águas minerais, onde se ergue a Pedra do Baú – o mais famoso acidente geográfico do estado de São Paulo – e onde se situa a pequena São Bento do Sapucaí, na divisa de São Paulo com Minas Gerais.

Na sexta-feira, foram apresentados e debatidos casos clínicos pesquisados no Projeto Análise e no IPLA; no sábado os casos clínicos do Centro de Estudos do Genoma Humano, acompanhados por Jorge Forbes, Mayana Zatz e pelos pesquisados do Projeto Análise.

A Conversação de São Bento sinalizou que a Psicanálise é a grande herdeira da medicina, tal como anteviu Jacques Lacan. Num mundo em que muitos médicos preferem o ideal do empirismo reducionista, a medicina renasce na psicanálise. A exposição dos projetos atuais mostrou a expressão da psicanálise no contexto de nossa época.

A conjugação da psicanálise com a genética, por Jorge Forbes e Mayana Zatz, atualiza o conceito de pulsão – com o qual Freud delimitou o campo do inconsciente – como elo intermediário entre uma determinação genética - genótipo – e sua expressão – fenótipo. Entre genótipo e fenótipo não há unidade, ou biunivocidade, como querem os empiristas; há um corpo, elemento articulador. “Isso que se perde faz com que a pessoa sempre tente inventar uma forma de se completar”, afirma Forbes. Do ponto de vista psicanalítico, ou a pessoa inventa ou se adequa a soluções que a sociedade lhe oferece, como as vestimentas da neurose, da psicose e da perversão.

Essa unidade perdida, da qual Jacques Lacan derivou a idéia do objeto a, é captada antes pelo afeto (o que toca) do que pela compreensão. Se o analista não compreende, a pessoa tem a chance da invenção. Nessa perspectiva, Forbes diferencia a Primeira Clínica, da Segunda Clínica de Lacan: se a Primeira buscava uma compreensão entre genótipo e fenótipo, relevando o Simbólico sobre o Real e o Imaginário, a Segunda privilegia a alusão, que dá espaço ao afeto, relevando o Real sobre o Simbólico e o Imaginário.

Se a idéia de compreensão sempre foi a base das relações sociais, como fundar a civilização tendo adquirido a consciência de que nem tudo se compreende? No lugar da compreensão, introduzimos uma responsabilidade, ou uma ética, diz Forbes. Trata-se de uma responsabilidade a priori, que incide sobre o que não sabemos, capaz de sustentar a criação humana como conseqüência do desejo e não de um trabalho de decifração.

Responsabilidade, afeto, inconsciente, invenção: são termos da orientação que Jorge Forbes releva na Segunda Clínica de Jacques Lacan. Expressam os desafios de nossa época. Surge a Clínica do Homem Desbussolado, dentro de um novo paradigma, no qual ressonar é mais forte do que raciocinar.

No domingo, tivemos uma apresentação mostrando o movimento deflagrado no IPLA e o depoimento de uma pesquisadora sobre a clínica que inventamos. Quanta mudança! Foi um salto qualitativo da conversação do ano passado para a deste ano. Sustentar essa qualidade é a nossa responsabilidade. Voltamos para casa diferentes de quando saímos, lembrando as palavras de Forbes: “com uma felicidade de uma qualidade que nenhum gozo ou possessão mundana saberiam igualar” (Por uma rosácea).

Teresa Genesini e Rodrigo Abrantes

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São Bento do Sapucaí é um lugar próximo da Pedra do Baú. Um lugar para descanso. Um lugar para se olhar muito longe.

Recentemente ele foi o palco de um trabalho. Um lugar onde os psicanalistas do IPLA fizeram uma conversação.

A arte da conversação é atingir o Outro. Algo que é difícil no mundo atual. Pois, fala-se o tempo todo. Mas a palavra não toca.

O que houve de diferente em São Bento do Sapucaí? Falamos de corpo e responsabilidade a partir da clínica freudiana e lacaniana. Não de qualquer forma. Não de qualquer modo. Falamos de uma maneira que fosse possível tocar o corpo, tocando ao mesmo tempo aqueles que ali estavam presentes.

Foram palavras que implicaram. Gestos que marcaram. Uma conversação que ficou muito além da palavra do sentido, da significação, do não-sentido. Uma palavra que tocou a todos a ponto de nos responsabilizarmos por aquilo que fazemos e pelo corpo que temos. São Bento foi marca e criou um marco. Que venha o próximo encontro.

Leny Mrech

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A conversação em São Bento representou um marco para a clínica lacaniana orientada a partir do real do corpo. Todos os casos clínicos foram debatidos e sustentados dentro dessa ética. Percebeu-se que temos que ir além de uma orientação edípica para mantermos viva a clínica no mundo globalizado, do homem nomeado por Jorge Forbes como desbussolado. Os efeitos mostrados permitem afirmar que se tem uma escola.

Márlio Nunes