O Robe Vermelho

17/07/2009 10h46

Italo Venturelli

Italo é médico neuro-cirurgião, pesquisador no Projeto Análise e membro do Corpo de Formação em Psicanálise do IPLA

Em 1981, trabalhando como médico neurocirurgião na Beneficência Portuguesa em SP, durante um plantão noturno, fui chamado na UTI para fazer uma avaliação neurológica.

O plantonista da cardiologia explicou-me sobre o caso de um paciente que se encontrava ligeiramente agitado em um pós operatório. Ao chegar ao leito, percebi que já conhecia aquelas feições.

Olhei para o colega, que com um movimento da cabeça confirmou minha certeza. Acho que era a primeira vez na vida em que, como neurocirurgião, iria examinar um mito.

Clinicamente o paciente encontrava-se um pouco agitado no leito, com certa sudorese, pressão arterial estável, boa diurese, hemodinamicamente bem, porém utilizando certas palavras de uma maneira inusitada.

Ao dirigir-me a ele, fitou-me nos olhos e perguntou: “Nos conhecemos?”. Dos palcos da vida, respondi. “O senhor é ator?”- Só na minha fantasia, eu disse. “Já vale.” Sorrimos e ele me pediu para tirá-lo dali. Mais algumas perguntas e percebi que se tratava apenas de algo transitório.

Disse ao colega que não havia necessidade de medicações, e que eu o acompanharia por alguns dias. Sugeri também que o paciente poderia ir para um apartamento nas dependências do hospital. E assim foi feito. A cirurgia foi um sucesso, e nosso paciente, gradualmente, foi se recuperando. Em dois dias já deambulava pelo quarto e, no terceiro, seu primeiro passeio pelos corredores do hospital.

Um charme! Com seu robe vermelho bordô, passeava pelas alas do hospital, e cumprimentava a todos com elegância e respeito incomum. Recebia carinho ou gesto festivo de cada qual que passava por ele, retribuindo com galhardia. Um gentleman! Um espetáculo; um show!

O mortal aqui se orgulhando do diagnóstico, e da posição adquirida naqueles dias. Afinal, se alguém quisesse um autógrafo tinha que se dirigir ao doutor para ver se podia. Mas, todos o respeitavam tanto, que sequer se atreveram a molestá-lo.

Ao seu lado a companheira fiel, tranqüila e doce, que sempre o acompanhou. Fazia-me poucas perguntas. Ele, obediente, sensível, a tudo e a todos agradecia. Às tardes, em torno das 15h, lá ia ele. Pijama de calças curtas, andar tranqüilo, parecia fazer um passeio no parque. E eu, atrás, de longe, numa mistura de análise médica da situação, acompanhava com uma tietagem imensa. Não pedi nenhum autógrafo. Nem precisava. Mais uns dois dias e até breve. “Se precisar, posso ligar para o senhor?” Ele era simplesmente um mimo.

Passados alguns anos, fui ao teatro vê-lo em ação. Que memória! Uma peça longa de William Shakespeare escrita em 1606, Rei Lear, que aborda a relação dos filhos com seus pais. Durante a peça, minha torcida era para que não houvesse nenhum deslize. Em cada pausa, um medo me abatia. Mas era só um medo meu, porque ele estava melhor do que nunca.

Levei meus filhos para assistirem. Eram tão pequenos que nem sei como nos deixaram entrar. Tive que colocar almofadas nas cadeiras para que pudessem ver o espetáculo. E que espetáculo! Um primor de montagem. Lá estava meu herói, falando, encenando. . .

Confesso que quando ele se assentou para uma longa fala do rei, fiquei sem respirar um bom tempo. Ele transpirava, e eu suava. Essa fala não acaba nunca! Esse Shakespeare, não tem coração! Como pode escrever uma fala destas? E assim foi. Um grande sucesso. Ovacionado ao final.

Ao término, fiquei ali um tempo. Relembrei novamente os fatos passados. Porque não uma chegadinha até o camarim? Será que se lembra de mim? Pouco provável; afinal foram tantos que o atenderam, e por muito mais tempo que eu. Tomei coragem e fui avante.

Uma multidão o cumprimentava. Ele transpirava como nunca. Meu Deus, que perigo, pensei. Mandei esse médico, dentro de mim, calar a boca e me entreguei como fã.

Custei a chegar perto. Ao vê-lo, ainda de longe, um olhar. E que olhar! “Dos palcos da vida, venha cá me dar um abraço” ele disse. Correram lágrimas nos meus olhos. Minha galera veio atrás e nos abraçamos. Agradeceu-me várias vezes, sua esposa também, pelos feitos lá no hospital. Contou-me cada detalhe daqueles fatos, que eu também tinha vivido, só que me contava com mais vida.

Naquele momento, voltei no tempo. Fiquei tão emocionado que pouco me recordo das palavras. Me lembro, porém, das expressões do seu rosto: alegre, educado, simples, gentil, emocionado, sincero, agradecido, realizado, cansado, feliz. Nunca mais o esqueci, Paulo Autran.