Otakus: da casa para as ruas

16/07/2009 15h25

Teresa Genesini e Eduardo Bertolini.

O arquivo encontra-se disponível para download,abaixo,em PDF.

INTRODUÇÃO: UM SALTO PARA O FUTURO

Há muitos séculos as pessoas pensavam que o mundo era plano. Que a terra era o centro do universo.

Hoje alguns ainda continuam acreditando que o mundo não mudou. Ledo engano. A informática, de uma maneira geral, e a internet, de forma específica, alteraram drasticamente a configuração do mundo. Vivemos a era da globalização. A era da informática. A era da sociedade da informação.

A cultura inteira foi afetada por este processo. Na década de 50 do século passado as revistas em quadrinhos ocupavam um lugar de destaque. O Superman era o personagem mais adorado pelas crianças.

Hoje os pais vêem seus filhos ligados à internet, aos animes (desenhos animados) e aos mangás (revistas em quadrinhos) japoneses.

O que eles têm de tão atraente que leva muitos adolescentes a passar horas assistindo a séries, fazendo tradução de animes, representando personagens? Há uma nova forma de leitura das histórias em quadrinhos e dos filmes de animação. Eles vem se corporificando de uma forma nunca anteriormente vista.

Para os jovens, suas fantasias podem ser concretizadas. Elas se transformaram em cosplay (uma fantasia para brincar, para representar um personagem de animes ou mangás).

Se na década de 50 as crianças representavam o Batman com a sua capa esvoaçante, hoje elas entram na cena, elas são o personagem. Você se lembra do filme do Woody Allen “A Rosa Púrpura do Cairo”? Hoje ele é uma realidade.

Os adolescentes da Geração Mutante (Jorge Forbes) constrõem a fantasia, escolhem a cena, o cenário, os demais personagens, etc. Em suma, um pequeno pedaço do imaginário cria vida e toma corpo. Ele revive através da atuação dos adoradores de mangás e animes.

Você se lembra dos trekkies? Dos fãs do filme Jornada nas Estrelas? Os jovens atuais vão além. Eles transformaram a sua fantasia em realidade, em base para novas relações. Eles não ficam mais fechados em seus quartos. Eles ultapassaram as fronteiras, construindo outros mundos. Novos mundos de relações e laços sociais.

Qual é a sua platéia? As tribos crescentes de fãs de mangás e animes, que ganham um peso cada vez maior na sociedade, reunindo-se em convenções de animes por todo o mundo.

O trabalho que apresentaremos a seguir foi o produto árduo de investigação de dois alunos do IPLA (Instituto da Psicanálise Lacaniana), sob a minha tutoria. Eles se interessaram por estes fenômenos e fizeram um recorte. Queriam saber o que estava acontecendo com estes jovens e quando, de alguma forma, este sintoma se tornava uma adição excessiva aos mangás e animes.

Os jovens da Geração Mutante, com as suas novas práticas e formas de atuação, exigem de nós outros olhares e práticas. O psicanalista precisa estar aberto para este mundo novo. Todos precisamos estar abertos para algo da ordem do inominável que se inscreve ali. Uma exigência de ir além do mundo em que vivemos, da nossa idéia de que a terra é o centro do universo ou que temos apenas uma única realidade, a chamada realidade concreta.

Convidamos a todos para um salto para o futuro. Um salto para um universo imaginário. Como Colombo, estes jovens estão chegando em novas terras. Venha conhecê-las também.

Dra Leny Magalhães Mrech – tutora do Grupo
Coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação do Instituto da Psicanálise Lacaniana e da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

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