Proust

17/07/2009 10h48

Resenha do comentário de Jorge Forbes, por ocasião do lançamento do livro Proust – a violência sutil do riso, Leda Tenório da Motta, Editora Perspectiva, na noite de 20 de setembro de 2007, na Livraria Cultura – São Paulo.

por Teresa Genesini e Elza Macedo

“Os medrosos não sabem rir”.
Com essa frase JF iniciou sua fala, fazendo menção a dois pensamentos que Leda comenta em seu livro:

  • Os gênios não temem rir (Cocteau).
  • Os sensatos só riem tremendo (Baudelaire)

Forbes desenvolveu cinco pontos analiticamente fundamentais nessa resenha:

  1. o homem sério
  2. relação entre ideal e causa
  3. o chato e o interessante
  4. o trágico e o drama
  5. o riso toca o corpo

Muita gente faz “cara de conteúdo” para parecer séria, comenta Jorge Forbes. Como se as pessoas que rissem fossem superficiais e não sérias. Conta que Lacan não temia rir, a ponto de alguém ter escrito um livro sobre ele, intitulado “Le Pitre” (O Palhaço). Lacan dizia que ser sério na vida é fazer série. Fazer série é poder transmitir algo de si, não a partir de um ideal, mas a partir de uma causa.

Comentando sobre o tema trabalhado por Proust (Em busca do tempo perdido), em que tempo perdido não é o tempo passado, é o tempo que se perde, Forbes diz que esta perda é inerente e é por ela que passa a satisfação humana. É impossível viver sem a presença da inutilidade, sem a presença dessa perda. Todas as coisas fundamentais da satisfação humana são absolutamente inúteis. Qual a utilidade de um banho de cachoeira?
Qual a utilidade da poesia?

Leda nos oferece um Proust interessante, ao contrário do Proust “importantemente chato”. É revolucionário e interessante ler Proust, é o que ela mostra. O chato tampa o espaço do desejo, e o interessante, ao contrário, o esvazia; é a tese de Freud, desenvolve Forbes, em “Escritores Criativos”.

Transformar o trágico da vida no cômico é uma posição lacaniana. O herói trágico sabe que não pode mudar sua história. Todos nós, de certa forma, nos fazemos de heróis trágicos, porque é seguro, o fim é conhecido. Como temos pânico de não saber para onde vamos, cada um sofre de sua tragédia particular, em nome do medo do risco, da aposta, do encontro, da surpresa. Quando conseguimos ver a inevitabilidade disso, do risco, da aposta, da surpresa, do encontro, podemos transformar o trágico de uma vida num elemento tragicômico ou mesmo dramático.

O riso toca o corpo. Por que esse tema é tão caro a Lacan? Porque mostra que nem tudo está perdido para os seres que falam. Haveria uma certa angústia – a base da angústia é que a palavra falta. Como responder à premência da satisfação, se tudo o que se encontra para dizer é pouco? Há sempre alguma coisa que não tem nome nem nunca terá.

... Mundo, mundo, vasto mundo. Eu posso mudar meu nome, me chamar Raimundo, mas eu não resolvo, porque meu desejo é sempre maior. Mais vasto é meu coração.

Enfim, podemos passar por Chico, Milton, Drummond, que sempre iremos encontrar o impasse da palavra. A palavra nunca diz de nossa satisfação, a não ser quando nós a corrompemos e a transformamos numa palavra poética ou num chiste. Forbes comenta que o riso toca o feminino – sabe que há algo além da civilização.

Para Lacan, a posição de um chiste é a posição de quem chega ao final de uma análise. Conseguir, com a palavra, tocar o corpo. Proust!