São Paulo, 1 de junho de 2004
nº 3

Desde seu lançamento, a newsletter do Projeto Análise tem focalizado o encontro entre a clínica e o mundo: consequências que o mundo importa à clínica; a novidade que a clínica gera no mundo. Os dois números anteriores obtinham esse resultado no mix de temas abordados sob uma só orientação. Essa terceira newsletter, no que se distingue, traz textos que examinam esse limiar em detalhe, a ponto de mostrar que a direção clínica é determinante sobre a política do movimento analítico, sobre a posição da psicanálise na sociedade e, em última instância, sobre o senso que a civilização tem de seu mal-estar.
 
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  “As Exposições Clínicas”: o-problema-do-corpo.   Pierre Rey, vinte anos depois.  
 
Jorge Forbes abre seu seminário falando em uma práxis fundada na incidência do gesto, na palavra `corporada´. É a clínica borromeana de Lacan, que excede a distinção entre mente e corpo, para indicar que além do corpo lido pela ciência moderna, corpo médico, reconhecido por medições e limitado pela epiderme, a vida humana se sustenta em um outro corpo, `real´. A psicanálise nasceu, com Freud, como um problema do corpo, e assim continua em Lacan, 'en-corps', a clínica de um corpo que goza.
 
Jornalista e escritor de romance, teatro e cinema, Pierre Rey publicou o mais lido relato de análise com Jacques Lacan, “Uma Temporada com Lacan”. Dessa análise, guarda “a possibilidade de refletir a cada instante” e encontrar, na “ossatura das coisas”, o tempo das coisas. Em entrevista exclusiva ao Projeto Análise, diz: tanto quanto prospere a medicalização do sofrimento, há uma demanda humana que só se dirige à psicanálise. Basta, ao analista, esperar que o outro venha a seu encontro.
 
  Carol Sonenreich, por uma medicina de autores.   Psicanálise “transdiscursiva”  
 
Na segunda sessão de "As Exposições Clínicas", Carol Sonenreich afirma que o diagnóstico não capta a realidade, é antes uma leitura médica revisável, reeditável. Daí sua crítica ao positivismo dos DSMs e CIDs. Sonenreich declara que "o sofrimento é do paciente, a doença é do médico". Por isso, a ciência médica não se faz no mero registro de evidências, mas requer autoria conceitual do clínico, que deve estar pronto para responder por sua escolha diagnóstica e de tratamento.
 
Com esse termo de Michel Foucault, Chaim Katz expõe perspectivas para a clínica e a transmissão da psicanálise hoje: mudança no setting, nos conceitos, uma nova geopolítica. O saber freudiano, diz, não é “um saber originário único ou de marcas e delineamentos que pudessem ser delimitados ... ... o instrumental psicanalítico não envelhece nem se elimina”. Foi sua conferência de encerramento ao II Encontro Mundial dos Estados Gerais da Psicanálise, no Rio de Janeiro.
 
  As entidades contra a regulamentação   O Analista como Ensinante  
 
Os esforços pela regulamentação da psicanálise – em especial o trabalho parlamentar nesse sentido, pelo Projeto de Lei n. 2.347/03 – avançaram, por um tempo, sem resposta direta. Em março deste ano, porém, o Movimento das Entidades Psicanalíticas fez-se ouvir no Congresso, ao apresentar um Manifesto assinado por sessenta e cinco instituições nacionais, com posicionamento preciso: oposição a toda iniciativa que, no parlamento ou fora dele, vise à regulamentação.
 
Acostumou-se a pensar, em um repertório lacaniano, que o analista jamais poderia “ensinar”. Afinal, a fala divide o sujeito: só é possível falar da posição de analisando. Ao analista caberia ser “o avesso do mestre”. Foram tempos de oposição entre a psicanálise e a ordem civilizadora. Na globalização, porém, os tropeços da maestria permitem a Jorge Forbes repensar o ensino da psicanálise, a topologia da Escola, o Passe, a avaliação.
 
  Cinematicidade, por Célio Garcia.   A Associação Mundial, no Brasil  
 
Hoje, a ilusão de um fluxo de tempo linear está abalada: percebemos realidades alternativas, vidas múltiplas e paralelas, e a escolha sobre o destino. Por isso, nossa realidade mostra-se frágil e contingente. Célio Garcia nota que é mesmo daí que o cinema extrai sua força atual: os filmes são capazes de alçar o Real em diferentes contextos simbólicos.
 
A ilha baiana de Comandatuba será anfitriã, entre 3 e 6 de agosto, do IV Congresso da Associação Mundial de Psicanálise. Apenas para membros, o encontro está dirigido especialmente a um tema conceitual (questões institucionais à parte): "A prática lacaniana: sem standard mas não sem princípios". Comandatuba foi antecedida por Barcelona, Buenos Aires e Bruxelas, como sedes dos Congressos mundiais.