Entrevista com Alain Grosrichard

07/05/2004 02h24

Durante sua visita ao Brasil, em abril de 2004, Alain Grosrichard concedeu uma entrevista especialmente para o site do Projeto Análise. A conversa aconteceu em 30 de abril de 2004, na FFLCH-USP, após a última sessão de seu Seminário “Rousseau juge de Jean-Jacques”.

PROJETO ANÁLISE: Rousseau nos permite pensar que alguém possa ultrapassar as convenções, o comum das identidades sociais e das relações fundadas no narcisismo do amor próprio – que alguém possa, enfim, viver encontros além do obstáculo do espelho que apenas reflete sua imagem – se puder opinar de acordo consigo mesmo, como diz no Contrato Social.

É uma proposta de forte apelo, que seduz muita gente.

Na última sessão do Seminário 7 de Lacan, há uma proposta ética: “agir em conformidade com teu desejo”. Cita-se muito, nesses termos: não ceder de seu desejo em face da coletividade. Por essas palavras de Lacan, o apelo parece ser o mesmo que o de Rousseau.

Às suas maneiras, tanto Rousseau quanto Lacan falam sobre a relação de alguém com os outros, com o grupo, e sugerem que podemos fazer melhor que acatar suas exigências.
Mas os textos de Rousseau e Lacan possuem conseqüências radicalmente distintas: Rousseau abre caminhos para a psicologia, enquanto Lacan “não cede” na psicanálise.

Será por que Rousseau quis descrever a “natureza” por trás do social, criando, afinal, uma segunda instância de adequação, enquanto Lacan não trouxe respostas ao desejo?

ALAIN GROSRICHARD: Do seminário que Lacan consagra à ética, suas máximas “age conforme seu próprio desejo” e “não cede em seu desejo” podem perfeitamente ser ilustradas por um certo número de aspectos da obra e, especialmente, da tomada de posição ética de Rousseau em sua própria vida. Basta distinguir o que Rousseau entende por seu desejo: não é, evidentemente, o desejo teorizado, tomado por Freud e, sobretudo, por Lacan.

Em Rousseau, o desejo que corresponderia àquele de que fala Lacan é o desejo que enraíza cada um ao que é sua vocação originária, quer dizer, o que ele chama, no fundo, amor de si. O amor de si é o amor pelo qual a natureza o compele a se satisfazer – a sociedade aparecendo justamente como o que perverteu o amor de si em amor próprio, ou seja, introduziu a barreira do narcisismo, do espelho, e que instaura uma lógica do egoísmo do ‘eu’ (moi), que se faz predominar. No interior dessa lógica, cada ‘eu’ tenta agir conforme ao que a regra social lhe impõe para se fazer reconhecer pelos outros ‘eu’s.

Rousseau e Lacan estão de acordo em considerarem que as regras da sociabilidade, nas sociedades pervertidas contemporâneas, são regras que assujeitam os indivíduos.

Para Rousseau, quem acredita agir em conformidade com seu próprio desejo em sociedade, ignora seu verdadeiro desejo. De modo que se conduzir conforme a determinação natural é, para Rousseau, não ceder de seu desejo. Será o mesmo que não ceder na natureza.

Poderíamos dizer que ele considerou ter sido o único, em seu século, a seguir essa ética, justamente por abandonar a vida dos salons e a capital, Paris; por se instalar solitário, no campo. Para ele, isto seria não ceder em seu desejo, mesmo que todos os seus antigos amigos o atacassem e fizessem crer que o verdadeiro desejo se situava, ou só poderia se realizar, na sociedade, pelas regras da sociedade.

PA:Mas, em Rousseau, encontramos a influência para uma psicologia, não? Algo que difere da psicanálise...

AG:Rousseau abre caminho para uma psicologia... isso poderia se sustentar, mas eu não penso que Rousseau, mais que outros, em seu século, abra caminho para uma psicologia. São principalmente filósofos como Condillac, por exemplo, que efetivamente abrem esse caminho: no associacionismo, na associação de idéias, fundam-se correntes da psicologia do século XIX. A psicologia deve muito a Condillac, e não tanto a Rousseau. Porque dizer que Rousseau dá abertura à psicologia enquanto Lacan não cede quanto à psicanálise ?

PA: Entendendo que, em Rousseau, uma outra cena aparece, que poderia nos fazer crer na possibilidade de encontrar uma verdade e, por ela, obter uma harmonia social.

AG: Isso pode se sustentar na teoria, mas a experiência de Rousseau em sua vida, ela não conduz a...

PA: A verdade lhe escapa...

AG: Sim. Penso que Lacan se posicionou com relação a Rousseau, antes de ter escrito a ética. Lacan se interessou por ele em sua tese sobre a paranóia – em que situava a psicose paranóica em suas relações com a personalidade – e, lá, há um certo número de páginas sobre Rousseau, que fazem dele quase um herói. A paranóia de Rousseau aparece como muito próxima ao que, para Lacan, é o caminho a seguir; de modo que, em geral, Lacan confiava no paranóico. Veja seu escrito sobre o presidente Schreber. Os paranóicos, justamente como Rousseau, são conduzidos por suas estruturas paranóicas ao bem além da psicologia, a um campo que é o da psicanálise.

Eu não penso que possamos contrapor as duas posições, de Rousseau e Lacan. Foram os comentadores que disseram... alguns comentadores, educadores, psicólogos...

PA: Uma vulgata!

AG: Sim. Mas quando vamos ver em Rousseau, percebemos que o que se diz dele, a partir da psicologia, é infiel – creio eu.

(As respostas foram dadas em francês - versão não revisada por Grosrichard).