Pierre Rey – vinte anos depois.

26/05/2004 04h53

Pierre Rey escreveu o livro mais conhecido - e lido - de relato de uma análise com Jacques Lacan: ‘Uma temporada com Lacan’. Ele vive em Paris, onde prossegue sua carreira de escritor, depois de, por muitos anos, ter também ocupado postos conhecidos na imprensa francesa. Ele concedeu essa entrevista ao Projeto Análise, na noite de terça-feira, 11 de maio de 2004. Brasserie Lipp, Paris.

PA: Passados um pouco mais de vinte anos, o que lhe ficou de sua análise com Lacan?

Pierre Rey: A primeira coisa que eu guardei foi a possibilidade de refletir a cada instante, de saber guardar uma distância das coisas, ter o sentido do relativo e decodificar: atrás das coisas tem a sua ossatura, a estrutura. Isso vale para todas as questões da atualidade, até mesmo para a paixão e o amor. Posso ver a estrutura.

PA: Como você vê o lugar da psicanálise hoje no mundo? O que você pensa que os analistas podem fazer para manter a importância que Freud e Lacan deram a ela?

PR: Isso pede um longo desenvolvimento. O lugar da psicanálise é o da demanda, feito pelo mal-estar daquele que sofre. Uma análise não se escreve sobre o nada e, sim, sobre o sofrimento. Esse mal-estar – falávamos de estrutura agora a pouco – esse mal-estar é estrutural. Conseqüentemente, a psicanálise não pode deixar de existir, da mesma maneira que o mal-estar do homem não deixará.

Agora, o que a gente deve fazer para que a psicanálise guarde seu lugar? Eu responderia: nada. Não há nada a ser feito. Comparemos a relação entre o analista e o cliente, com a da mulher amada e um homem. Nada a fazer senão esperar que o outro venha em sua direção. Só se pode esperar a demanda, e ter que esperar não quer dizer que a demanda não exista, e que o outro não virá ao seu encontro. Para o analista, basta esperar.

Imagine um mundo amanhã em que cada um estivesse feliz na sua pele: não haveria mais análise. Isso é completamente impensável. A psicanálise vai durar o tempo do mal-estar do homem.

PA: Cada vez mais pessoas preferem tomar remédios. Você acredita que os medicamentos vão substituir a psicanálise ou não?
PR: No mundo da medicina, para cada problema existe uma solução. Aspirina para dor de cabeça, amputação da perna para gangrena. Na análise a pessoa tem uma demanda, a partir de um mal-estar mais amplo, e não uma demanda de sintomas desse tipo específico, dessa precisão. A questão da análise é localizar um sintoma e levar a pessoa a se sentir melhor. Eu diria, por exemplo, que o câncer é uma resposta do corpo a uma pergunta sem resposta. O câncer nasce em você, ele é endogênico, misterioso, alquímico, secreto. Acho que não teremos soluções medicamentosas a esse gênero de mal-estar.

PA: Uma última pergunta: quando você irá ao Brasil?

PR: Eu já deveria ter ido muitas vezes, tantas que já fui convidado. Diria que quero muito ir ao Brasil, mas... seria idiota dizer isso, porque é tão fácil ir. Olha bem: eu posso me levantar dessa mesa, estar rapidamente no aeroporto, passar um cartão de crédito, receber o bilhete, embarcar no avião e pronto, chego ao Brasil. Não vou fazer isso imediatamente por uma ótima razão: você está aqui, em Paris. Uma boa razão que eu tenho para ir ao Brasil, é para estar com você.

Existem lugares, existem pessoas, amigos – existem mulheres... – que necessitam uma espécie de espera. Eu acho que o Brasil faz parte desse grupo, porque eu tenho certeza que o Brasil, ah!, le Brèsil, ça se mérite!