Um pouco de Joyce para psicanalistas

25/02/2007 04h04

Luiz de Souza Dantas Forbes

Para penetrar na escura selva joyceana, e dali emergir incólume, é imperativo conseguir um guia capaz de me conduzir com segurança nesse intrincado conjunto de anacolutos e metáforas, sem falar nas palavras de duplo sentido.

Recorri a Lacan: quem mais indicado para isso, senão o desbravador do inconsciente, audacioso manipulador de vocábulos ambíguos, emérito criador de “jeux de mots”? Pois, Lacan me atendeu prontamente, pelas páginas do “Joyce com Lacan”. Disse-me ele que, freqüentador do salão de Adrienne Monnier, aos 17 anos de idade, conheceu pessoalmente Joyce, e três anos depois ouviu a primeira leitura da recém-saída tradução francesa de “Ulysses”.
E mais ainda: Tinha sempre consigo, ele, Lacan, boa quantidade de livros sobre Joyce, mas livros de Joyce, eram apenas uns poucos. Uma boa prova da dificuldade de sua leitura. Logo em seguida, Lacan, em “Joyce o sintoma”, adverte sobre o problema da homofonia na fonética. Em suas parcas informações sobre Joyce, Lacan refere-se sobretudo ao primeiro livro (Retrato do Artista) e ao último (Finnegans Wake). Sendo assim, vou me ocupar do “Ulysses”. Entretanto, é oportuno começar esse comentário justamente com as últimas palavras do “Retrato do Artista quando jovem”: “Salve, ó vida! Pela milionésima vez saio em busca da realidade da experiência para moldar na forja de minha alma incriada consciência de minha raça!

É tempo de apresentar James A. Joyce, nascido em 1882, na Irlanda, numa família em decadência, no tocante à posição econômica. Matriculado aos 6 anos na escola dos Jesuítas em Conglowes, recebeu aí sua educação até a adolescência. Em 1898 entrou no University College em Dublin. Concluído seu curso com o diploma de B.A., ele parte para Paris onde vai viver miseravelmente. Nessa despedida, sua mãe carinhosamente põe na mala suas roupas novas – de segunda mão – e a enérgica apóstrofe à vida, acima reproduzida, corresponde à decisão da mudança de seus rumos na existência.
Extraordinário exemplo este, de um moço pobre e desamparado que chegou às culminâncias da glória literária, figura obrigatória no cânone ocidental das letras!

E o homem? Joyce é um renegado, mas não um réprobo: abandonou sua terra natal, mas é o mais irlandês de todos os grandes escritores de sua pátria: abandonou sua religião, mas continua temente a Deus. A esse propósito, convém lembrar que suas dúvidas nasceram de uma discordância intelectual quanto à Santíssima Trindade resultando disso a suposição de ser o Filho exatamente criador como o Pai: a história eclesiástica registra a incompreensão de Santo Agostinho sobre o mistério da Trindade, antes, naturalmente, de sua total conversão. É possível encontrar nas opiniões de Joyce, expressas através de Stephen, elementos heréticos, porém não cabe fazer aqui uma argumentação teológica. Joyce é rude, direto, positivo em suas frases, mas jamais é boçal: até mesmo quando descreve atitudes ou atos fisiológicos, não é grosseiro; entretanto não apela para eufemismo nenhum! Ele segue a teoria de Freud, no seu artigo: “J’appelle un chat, un chat” – esta frase de Freud é sempre citada em francês. Joyce é sempre simpático com seus personagens: nenhum deles pratica um ato ignóbil, não há agressividade. Quando ocorre uma manifestação de brutalidade, como o ataque do “cidadão” ao “Judeu Bloom”, por ter ele ousado pronunciar o nome de Nosso Senhor, o fato tem um cunho humorístico.

Voltando à minha afirmação sobre a persistência de seu espírito religioso, venho aduzir um argumento a favor disso, ao mesmo tempo sendo curioso exemplo de seu sistema de redigir.

Na primeira página do capítulo dos Lestrigônios está escrito: “Firma de Birmingham anuncia o crucifixo luminoso. Nosso Salvador. Acordando, noite alta pode-se vê-lo na parede, pendurado. Iron Nails Ran In”. Esta última frase de 4 palavras foi traduzida na edição brasileira assim: “Impuseram Nele Rudes Infâmias”, na edição francesa está: “Il Nous Refait Innocents”, à qual acrescento: “Inocente Nazareno, Redentor Infinito”. Estas traduções seguem a idéia do original, bastante evidente, ao constituírem com as iniciais a sigla “INRI”.

Joyce precisa de muito tempo para aprontar seus livros. Um episódio bem ilustrativo a esse respeito é encontrado na página 138 do Pelican Guide da literatura inglesa, nº 7. “A idade moderna”! Eis o seu resumo: Frank Budgen, amigo de Joyce vai visitá-lo e indaga como vai o trabalho com “Ulysses”: “Estou trabalhando nele o dia todo”, diz Joyce. “Escreveu muito então?” “Duas sentenças”, diz Joyce. O amigo estranhou, e perguntou: “Você está à procura de algum “mot juste” ”? “Não”, responde Joyce, “As palavras já as tenho todas, apenas não decidi sobre a ordem delas”. Localizadas no capítulo dos Lestrigônios, depois da “sedução” de umas anáguas numa vitrine, são estas as palavras, como finalmente aparecem no livro: “Perfume seu o envolve todo atiçado, com esfomeada carne obscuramente, ele tácito ansiava adorar.”

Outras vezes, é preciso adivinhar a razão de determinado trecho, aparentemente sem razão. No capítulo 9, Cila e Caribdis um grupo de amigos interessados em conversas intelectuais sobretudo, está entretido, às 2 da tarde, na Biblioteca. Um deles, Russell, é conhecido mais por suas iniciais A.E., outro é Stephen. De repente, sem mais aquela, alguém pergunta a Stephen: “Você não pediu um dinheiro emprestado ao A.E.? Não vai pagar?” “Vou, naturalmente”, diz Stephen, “mas hoje não”. “Então você deve assinar num papelucho qualquer, eu lhe devo tanto” (em inglês I.O.U.). Em qualquer clube ou casa de ingleses este é o costume. “Assim ficará A.E.I.O.U.”, insiste o amigo inconveniente. O caso fica assim, interrompido sem seqüência. Ora, tal intervenção era pelo menos deselegante e inoportuna. Mas sempre há uma razão, a ser descoberta nas linhas de Joyce. Alguém há de saber a divisa soberba da Áustria, A.E.I.O.U., Áustria Est Imperare Orbe Universo. Páginas adiante (ou seja, minutos depois) alguém bate à porta, quer entrar para pesquisa de um anúncio. Quem chegou é o Senhor Bloom, de origem húngara, cujo pai era súdito do Império Austro Húngaro. Então, a história de A.E.I.O.U. era uma trombeta anunciando a chegada de um personagem ligado ao dito Império.

Agora, antes de falar no livro propriamente dito, uns apontamentos sobre a tradução de “Ulysses”. É realmente uma portentosa tradução, pois o livro é repleto de ciladas e escolhos. Exigiu certamente uma atuação rasante, de todos os instantes. É preciso porém registrar algumas observações sobre falhas ou erros, umas por serem divertidas, outras por serem essenciais.

Abre-se o capítulo 4 - Calipso – com as preferências gustativo-alimentares do nosso amigo Leopold Bloom. Ele se delicia – diz a tradução – com os órgãos internos de quadrúpedes e aves. Segue essa enumeração = miúdos de aves, moelas amendoadas, coração assado, fígado, ovas de bacalhau... No capítulo dos Lestrigônios (página 134 do original, 125 da ed. bras.), alguém solta do cativeiro um rebelde nacionalista: este alguém é a filha de Turnkey (vira-chaves), ou seja, a filha do carcereiro... Um amigo chega a avisar-me: cuidado, pois se estiver esse nome com maiúscula inicial, bem pode ser o nome real do carcereiro mas, no caso, Turnkey aparece em seguida a um ponto final, impedindo pois esta verificação...

Já um outro deslize na tradução revela ignorância da história irlandesa. Repetidas vezes aparece, como na mesmíssima citada página, “Um sol auto-governante” levantando-se – como costuma fazer o sol – a noroeste... Este sol do “home-rule” (ou seja, governo interno) tem para os irlandeses o mesmo significado do nosso sol de liberdade, raiando no horizonte, a Irlanda, anexada à Inglaterra depois de séculos de luta, forcejava para obter ao menos a autonomia nas questões internas, deixando as relações exteriores para a Inglaterra. Este fato até hoje divide em dois pedaços a ilha dos sábios, dos santos e dos poetas!

Ainda no mesmo capítulo dos Lestrigônios, pelo visto, prenhe de embustes, acompanhamos Bloom no seu “pub” habitual, decidindo-se afinal (ainda não é bem hora do almoço) por um aperitivo (um copo de vinho francês e um sandwich de queijo). Sua cabeça está funcionando sem tréguas, tudo é observado, captado “o queijo, ainda mais sendo gorgonzola, digere tudo, menos ele próprio”. Poderoso queijo! Poderoso, pergunto eu, ou bichado? Mighty or Mity? Eis aí um pequenino problema de fonética, que faz pensar num outro problema de fonética, de suprema importância – penso eu – para os psicanalistas. Em francês, página 183 do Acte de Fondation, 21 de junho de 1964: “Que les Psychanalystes soient hors d’état de juger des maux où ils baignent, c’est assez pour expliquer qu’ils y répondent par un enkystement de la pensée, trecho este devidamente traduzido no documento da Escola: que os psicanalistas não tenham condição de julgar os males onde imergem” etc. etc. Desde quando compete aos psicanalistas julgar os males onde imergem? Sempre li em Lacan que o homem, desde o nascimento está imerso num oceano de palavras. Bem que Lacan alertava: Cuidado com a homofonia! Como explicar isso? Presumo que o texto de Lacan tenha sido entregue através de um aparelho gravador e quando dele retirado, a homofonia perturbou o entendimento e a correção ainda está para ser feita.

Estamos chegando à oportunidade de explicar algo do “Ulysses”. Antes porém, um sumário bem rápido sobre a situação dos judeus como compreendida no livro. Já no começo, o professor da escola, Mr. Deasy, diz ao Stephen: “A Irlanda é o único país a não ter restrição à atividade dos judeus; sabe por quê? Porque nunca os deixamos entrar! O Bloom é nascido na Irlanda, é bom lembrar. Quando as letras AEIOU anunciam a entrada de alguém, sabendo-se então sua identidade, faz um dos participantes da tertúlia a observação desairosa: “lá vem esse judeuzinho! “Depois, em outra situação, o autor compara a posição dos judeus e a dos irlandeses: raças perseguidas, a Irlanda desfalcada de milhões de cidadãos, mortos na grande fome, ou forçados a emigrar para sobreviver. Por outro lado, o judeu Bloom encabeça a lista de donativos para a pobre família do amigo enterrado de manhã.


ULYSSES


Este portentoso livro é a crônica dos pequenos acontecimentos de um restrito grupo de moradores de Dublin, no dia 16 de junho de 1904. São narradas todas as circunstâncias, por mais prosaicas que sejam – um banho, o uso de um assento de latrina, um enterro acompanhado pelos amigos do falecido, andanças nas ruas da cidade, encontros fortuitos, uma (ou muitas) passadas nos bares abertos, a toda hora, uma conversa animada de freqüentadores do jornal, opiniões a respeito do provável ganhador na corrida de cavalos, uma “matineé” programada, uma visita à zona de meretrício, enfim, de tudo se fala. Mas há uma característica essencial: os pensamentos de algumas personagens são apresentados, nos mais íntimos pormenores aos leitores que, portanto, os acompanham. É a novidade do monólogo interior, do solilóquio silencioso do devaneio sempre presente: Estamos diante da Psicopatologia da vida quotidiana, sem as observações ou comentários da psicopatologia. Os personagens principais agem, como qualquer personagem, porém, pode-se seguir o seu inconsciente – está aí a palavra-chave. Exemplos não faltam. Bloom vai ao açougue comprar fígado para seu breakfast, no caminho vai registrando uma seqüência de fatos e de idéias: Um cartaz de teatro. Peça de hoje, Lia, a atriz trabalhou como Hamlet. Travesti? Foi a causa do suicídio de Ofélia? Qual era o nome daquela peça? Raquel? A associação de idéias, no monólogo silencioso interno, foi de Lia a Raquel. Esta ligação já era previsível por um leitor da Bíblia, ou do célebre soneto de Camões. Em outra ocasião, Bloom vê ao longe um homem cujo nome ele não recorda. Será Pendennis? É uma coisa assim. Ele vai tratando de sua vida, sempre querendo recordar o nome esquecido. De repente, sem saber porque (avistou uma flor, flor é rosa?) a memória funcionou – Penrose! Quem desconhece aqui a história de Signorelli, em Freud? Mais adiante, um ato falho. Bloom fala de sua mulher, muito na moda, a um amigo: “Minha mulher tem muitos servidores; digo, seguidores”. Lembram-se do caso de Freud da Psicologia, do rapaz que propunha acompanhar a moça e ofereceu-se mesmo para acoplar-se: (begleiten beleidigen)? Esses e tantos outros detalhes, indicam o conhecimento da teoria de Freud por Joyce.

Mas o livro? É uma grande estrutura, um edifício central, majestoso, com anexos laterais (um de cada lado). O livro está dividido em 18 episódios, 3 de abertura, 12 de parte central, 3 de fechamento. Ulysses de Homero, tem a mesma divisão. O nome igual não significa igualdade, porém analogia, de situações. Ulysses grego volta para sua casa depois de peregrinar 10 anos pelos mares e ilhas, o Ulysses judeu irlandês sai de casa de manhã cedo, à cata de uns miúdos de boi, e volta para sua cama já quase na madrugada seguinte. É indispensável saber a denominação de cada capítulo, pois assim um fato dominante lembra um episódio da Odisséia. Mas atenção – é analogia ou paródia, não semelhança absoluta. Assim, no Ciclope, o cidadão agigantado que atira com violência uma lata de biscoitos em Bloom, é uma alusão ao Polifemo que ataca o desconhecido Ulysses, chamado ninguém, com sua pedra. As rochas errantes, na rota de Ulysses, são no livro, pessoas que se entrecruzam ou se abalroam, e até mesmo uma casca de banana na calçada, empurrada por uma pessoa cuidadosa, para evitar uma possível queda. No episódio Os bois (ou o gado) do Sol, bois cuja criação era dedicada a um Deus, espera-se o nascimento do filho de um senhor Teodoro (nome escolhido por Schreber para o seu médico), mas a narrativa na realidade é a recapitulação da gestação da língua inglesa. A idéia central da obra de Homero é o encontro de Ulysses e Telêmaco, o pai e o filho. Na obra de Joyce é possível ver uma linha diretriz, de um pai à procura de um filho, e de um filho que procura um pai. Em torno desse tema muita coisa empolgante é discutida: A paternidade é um mal necessário, ou a paternidade pode ser uma ficção legal. O último capítulo, denominado Penélope é um monólogo antológico de Molly, a mulher de Bloom: derrama-se em trinta e cinco páginas, onde não há vírgula nem ponto. Há apenas uma separação paragráfica (também sem pontuação) em oito seções, o número sendo homenagem a sua data de aniversário, 8 de setembro. Molly conta sem rebuços, sem falsa vergonha, toda sua história, desde o início em Gibraltar, onde seu pai servia como major do exército. Ela faz uma avaliação de toda sua vida, e chega à conclusão que vai continuar sua vida com o marido, homem de muita virtude, aí sobressaindo à prudência; sua decisão é marcada por indiscutível, reiterado SIM.

O livro é uma grande floresta, que deve ser desvendada aos poucos; é por enquanto um cipoal, com frases truncadas, arcaísmos e neologismos, palavras entrecortadas, com outro vocábulo no intervalo, e palavras estropiadas ou distorcidas como a metem – psicose – repetida “ad nauseam”. Em suma, um território ainda a ser explorado, onde se encontram tesouros de imaginação. Joyce é enciclopédico, e tem a máxima graduação em filologia e literatura. Como amostra de sua versatilidade e fecundidade, compilei do livro de Stuart Gilbert um bocado de expressões metafóricas e mecanismos semânticos, escolhidos só num destes inesgotáveis capítulos, distribuindo esta relação para maior esclarecimento. Chamo a atenção para o último da lista, “Hapax”: expressão trazida aqui uma vez por Jacques-Alain Miller e para o palíndromo “ama” que, em inglês, traz sugestão de homossexualidade.

Um trecho a destacar: “Há pecados ou (vamos chamá-los como o mundo os chama) más lembranças ocultadas pelo homem nos mais escuros lugares do coração, mas aí residem e esperam. Ele pode deixar sua memória esmaecer, pode largá-los como se jamais tivessem existido, pode quase se persuadir que não aconteceram, ou eram diferentes. Porém, uma palavra casual pode chamá-los de repente, e eles se alçam para confrontá-lo nas mais variadas circunstâncias, visão ou sonho, ou quando pandeiro ou harpa acalmam seus sentidos ou na fresca tranqüilidade argêntea da tarde ou numa festa, à meia-noite, quando está encharcado de vinho.”

Quanto ao monólogo de Molly, indiscutivelmente terra-a-terra, ela mantém, como diz de Swift um escritor francês, uma “serenidade na indecência” marcando nossa admiração, algo com longanimidade materna que permite à mulher desempenhar o papel de anjo ministrador sem apontar em seu rosto a mais apagada evidência de rubor pelas mais repugnantes enfermidades.

Para concluir, tentando imitar a impressão causada pelo discurso de um participante da conversa no jornal sobre o Moisés de Miguel Ângelo: “essa pétrea figura, em imutáveis palavras desta divina forma humana, esse símbolo eterno de sabedoria e profecia que se algo que a imaginação e a mão do escritor inscreveram na alma transfigurada merece viver, merece viver”.

(Artigo apresentado na Escola Brasileira de Psicanálise, em 19 de outubro de 1995).