O toque do analista – impressões de Teresa Genesini

12/03/2010 04h37

O Avesso da Psicanálise de Jacques Lacan, em quatro conferências de Alain Grosrichard, no IPLA, em São Paulo.

Minhas impressões sobre o curso

O toque do analista: não uma interpretação, mas uma injeção

Escrevo este resumo sob o impacto do que foram essas quatro conferências de Alain Grosrichard no IPLA (de 5 a 7 de março). Grosrichard havia anunciado que suas conferências teriam como tema O avesso e suas surpresas - e mesmo anunciado, esse encontro nos surpreendeu a ponto de tocar o Corpo de Formação em Psicanálise do IPLA.

Para ser tocado não é preciso compreender - a compreensão é especular - nos fala Alain. Para ele, o leitor tem que colocar no texto algo de si e encontrar uma parte perdida de si mesmo no texto. Ele nos propõe uma viagem pelo seminário XVII através de suas lentes, de uma parte do seu saber universitário, que é sua forma de gozo. E convida para essa viagem conosco as referências de Lacan: Diderot, Sade, Rousseau, Rimbaud, Hegel, Aristóteles, Descartes, Platão, Kant, Voltaire, Foucault, Spinoza, etc. Impossível ler Lacan sem buscar suas referências !

Os deslocamentos como locais de enunciação

Grosrichard lembra os deslocamentos de Lacan, que determinam seus discursos:

  • Hospital Sainte-Anne - fala aos médicos - de 1953 a 1963
  • École Normale Supérieure - fala aos filósofos - de 1964 a 1969
  • Faculdade de Direito - de 1969 a 1981 - onde o Seminário é ministrado a toda a opinião esclarecida.

Quando inicia o Seminário XVII - O Avesso da Psicanálise - Lacan está em seu terceiro deslocamento.  Sob o impacto de maio de 68 e de sua saída da Rue d´Ulm decide fazer uma releitura da obra de Freud pelo avesso, um projeto anunciado em 1966 no texto De Nossos Antecedentes, publicado nos Escritos.

Como numa mágica Alain nos transporta para as escadas do Panteão e para o Bosque de Vincennes onde Lacan fala aos universitários. Lá encontramos Diderot, Rousseau e o Marquês de Sade. Com eles descobrimos que os desenvolvimentos das ciências e das artes só nos aprisionaram dando-nos a ilusão de nos libertar; que o conhecimento aumenta a cegueira humana, pois no fundo somos cegos frente ao Real e tapamos o buraco com um saber; que o verdadeiro cego pode nos tirar dessa ilusão imaginária fazendo com que nos confrontemos com esse Real insuportável; que a verdade é um encontro que se revela através de um lapso.

As quatro patas dos discursos

Lacan fala de sua teoria dos discursos - uma máquina de transformação do gozo - como algo de quatro patas, uma alusão à carta de Voltaire sobre o discurso da desigualdade de Rousseau: "Sente-se vontade de andar de quatro patas quando se lê sua obra."

Para construir sua teoria, principalmente o discurso do mestre, Lacan se apóia em Hegel, nas relações entre o Mestre e o Escravo. São quatro letras S?, S?, $, a, ocupando quatro posições: agente, outro, verdade e produção.

O discurso do mestre é o discurso do inconsciente. O mestre opera sobre S?, o saber do escravo e produz o objeto a, a causa do desejo ou o mais de gozar, segundo a teoria de Marx.

No discurso da histérica, a partir do fato de ser sujeito barrado, a histérica questiona o mestre colocando-o para trabalhar e produzir um saber.

No discurso do analista, a partir do seu desejo, escondendo seu saber, o analista questiona o sujeito dividido para produzir o significante da sua singularidade.

Discurso da universidade: meu saber, não reconhecendo a dívida que tenho ao saber do mestre interpela o desejo de saber do aluno produzindo o sujeito barrado que fica sempre devendo ao saber.

 Ao apresentar sua teoria dos discursos aos estudantes em Vincennes Lacan diz que a universidade é indestrutível porque é um discurso, embora ache que esse seja o discurso da imbecilidade. Ele provoca esses jovens dizendo que o discurso da universidade irá transformá-los em unidades de valor (créditos). Para Lacan, o discurso universitário é uma maneira de apresentar toda a história das idéias.

Para discutir O Avesso da Psicanálise, Grosrichard faz apelo a algumas obras da literatura, tais como: Jacques, o fatalista (Diderot); Os 120 dias de Sodoma (Marquês de Sade); O adormecido do vale (poema de Rimbaud); O sobrinho de Rameau (Diderot); Carta à Sophie Volland, de 15/10/1759 (Diderot); As jóias indiscretas (Diderot) e As confissões (Rousseau).

Sade e a economia do gozo

O sujeito barrado vai se identificar ao significante que o marca, ao seu traço unário. Grosrichard cita o texto de Freud "Bate-se numa criança" - a criança é espancada pelo pai que lhe deixa uma marca, um gozo masoquista, um gozo original que se constitui na sua singularidade. A repetição busca sempre o reencontro com esse gozo original perdido. O fantasma é o que permite que se goze o necessário sem correr o risco de morte, pois a morte é o limite do gozo. O que interessa a Lacan é essa verdade que se esconde através dessa marca no corpo, a marca da palmada que a criança recebe do pai, essa verdade que é irmã do gozo, nos afirma Grosrichard.

Lacan fala desse traço unário, a mão da mãe que bate - essa repetição jamais resultará na satisfação e para ilustrar essa afirmação Grosrichard nos fala de uma passagem das Confissões de Rousseau.

O movimento do desejo é um movimento sem fim. Não há um gozo plenamente satisfatório para o sujeito, o parlêtre, porque não há relação sexual; isto é, nenhum parlêtre pode encontrar um objeto que o satisfaça plenamente.

Não há relação sexual, mas há amor. O amor é o que vem suprir essa ausência, o que faz com que mesmo assim acreditemos na relação sexual.

A Vergonha e a Honra

Lacan termina seu seminário XVII falando da vergonha. Há uma vergonha original misturada à culpa. O ponto de origem da vergonha é um significante. Trata-se da vergonha fundamental, relacionada à marca que se fez (ou não) na pele de cada um. Quando o sujeito evoca seu fantasma, ele nunca o faz sem vergonha, diz Grosrichard.

"Morrer de vergonha é um efeito raramente conseguido". Sempre se tem vergonha de se falar sobre as fantasias, mas, do sintoma não temos vergonha. Rousseau, ao escrever suas Confissões ousa expor sua própria vergonha aos olhos do leitor e faz de sua vergonha a sua glória. Diz ele: "... a minha vergonha sou eu mesmo na minha singularidade absoluta. Vou mostrar a vocês minha marca de gozo: meu valor absoluto é ser outro".

Grosrichard conclui sua conferência com uma citação de Spinoza que Lacan coloca em epígrafe em sua tese: "Uma afecção qualquer de cada individuo difere da afecção de um outro individuo,  tanto quanto a essência de um difere da essência do outro."

O efeito produzido por essas conferências não é algo que possa ser compreendido nem interpretado - são como os sulcos que se formam nas pedras pela passagem das águas no fundo do rio. O silêncio se faz necessário - uma pausa de mil compassos.

 

São Paulo, 8 de março de 2010.          

Teresa Genesini

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