Como filosofar com o martelo

22/05/2012 23h24

 

Como filosofar com o martelo: uma viagem em companhia de Friedrich Nietzsche

Um relato de Dorothee Rüdiger

 

Permita-me, caro leitor, seduzi-lo para uma viagem à Alemanha em companhia de um homem nada comum, um “espírito livre” , como ele mesmo preferia se designar.  Nosso companheiro de viagem é o filósofo Friedrich Nietzsche que  nasceu na cidade de Röcken, perto de Leipzig, na casa de uma família de pastores protestantes e morreu, mergulhado no delírio, em Weimar,  no ano de  1900. Vale a pena viajarmos em tão ilustre companhia, porque Friedrich Nietzsche é o filósofo que inaugurou o pensamento pós-moderno.

Como é um tanto arriscado o viajante perder-se nos bosques da Alemanha e nas ideias de um dos seus pensadores mais ilustre,  seguimos o mapa que Luc Ferry, em sua obra Aprender a viver, nos oferece para chegarmos, com alguma segurança a nosso destino, à contemporaneidade.  

Ponto de partida:  As construções da modernidade

Para saber o que, afinal, Friedrich Nietzsche quer desconstruir com sua filosofia do martelo, denominada, assim, em sua obra Crepúsculo dos ídolos,  precisamos saber que os pensadores modernos comparam frequentemente suas teorias com uma “construção”.

 Teorias se constroem. A cidadania e o Estado são edifícios. Assim diz, por exemplo, o preâmbulo da  United State Bill of Rights, do ano de 1789, uma das pedras angulares da Constituição dos Estado Unidos.  Com essas construções, os filósofos da modernidade reedificaram o mundo em meio à revolução científica ocorrida desde Nicolau Copérnico  até Isaac Newton, revolução essa que tirou o mundo de sua ordem estabelecida.  Ao invés da harmonia natural do cosmos dos antigos, ou da ordem divina do cristianismo, reina, a partir das descobertas da astronomia e da física, o caos. Precursor dessa revolução da ciência é o grande cisma da Igreja Católica provocado pelo protestantismo.  Como cada um pode seguir livremente sua fé, pode investigar o mundo sem se preocupar com a doutrina da Igreja. Mas, em que se apoiar, quando não na fé?

Nesse mundo do caos, a filosofia moderna procura uma nova teoria, uma nova forma de “contemplar a natureza”,  no  método científico. Esse método deve ser capaz de investigar os problemas, realizar juízos sintéticos, como diria Immanuel Kant, juntando as causas dos problemas com seus efeitos. Esses juízos só são possíveis se o cientista fizer uso da razão, isto é,  não se deixar levar pelos seus sentimentos. Assim, encontrará a verdade científica.  

No plano da moral, o caos político instalado na modernidade, principalmente na luta entre a aristocracia e a burguesia e entre os nascentes Estados Nacionais também requer uma nova ordem. Por isso, os modernos constroem uma moral que não tem mais uma referência no cosmos ou na ordem religiosa, mas  no próprio homem e sua liberdade.  O humanismo torna-se a pedra angular da construção dos direitos humanos  universalmente válidos, já que todo homem é dotado de razão e, portanto, do  livre arbítrio.

Como, na modernidade, a teoria e a moral estão permanentemente em construção, a sabedoria, ou seja, a arte de viver (e morrer) dedica-se às grandes causas.   A ciência, a política e o direito têm grandes projetos para o futuro a ser construído: o conhecimento universal, a grandeza da Nação ou, ainda, o comunismo, dentre outros. São projetos para os quais vale a pena morrer, como na antiguidade se morria para ter seu lugar no cosmos ou, na era cristã, ter seu lugar na Cidade de Deus, conquistado pela fé e pela caridade. Friedrich Nietzsche diz que a filosofia moderna criou uma religião sem deuses que, tal como as construções da ciência e da moral democrática deverá sofrer suas marteladas.

Primeira parada: Nietzsche no canteiro da desconstrução

Friedrich Nietzsche é implacável contra Deus e o mundo. Despeja sua ira contra os republicanos que permanecem crentes de algum valor superior à vida, e os filósofos iluministas que ainda são prisioneiros da religião. Ao invés de Deus, veneram falsos deuses, os ídolos. Estes estão na mira da filosofia do martelo. Por que essa radicalidade do ataque que não poupa nem cientistas, nem  filósofos, nem  juristas e nem políticos?  Todos têm em comum de não aceitarem “a vida como ela é”.  Sua transcendência, seus juízos da verdade e seus valores morais  nada mais são do que sintomas  da vida.  São niilistas, porque negam a vida.

Como o leitor pode perceber, Friedrich Nietzsche retoma radicalmente o espírito crítico dos modernos que não mais acreditavam num mundo proposto pela fé cristã e partiram para a dúvida e para a investigação.  Mas, ao invés de construir um novo cosmos, uma nova religião e uma nova  filosofia da salvação, Nietzsche prefere criticar a busca da verdade, as grandes causas e declarar que “Deus está morto!” 

Feito isso, Nietzsche abre um espaço para o nascimento do novo, da sociedade pós-moderna. Ele é mais radical que os filósofos do iluminismo. Vai além da teoria e inventa o Alegre saber, vai Além do bem o do mal para inventar o agir em grande estilo e vai além dos projetos de salvação para propor o amor do tempo presente.

Segunda parada: além da teoria, o alegre saber sobre as forças da vida

Friedrich Nietzsche nos convida para enxergarmos por detrás da fachada das construções teóricas. Não há como contemplar o cosmos pela teoria, não há ponto de vista superior à vida a partir do qual poderíamos ver e entender a vida. Há, sim, forças vitais que nos habitam, produtos da vida. Só podemos perceber a vida, se encararmos que “o real é um caos”, que “o mundo é um monstro de forças”, um “mar tempestuoso”.  Mas, será que Nietzsche nos leva ao fim do mundo, a um buraco da existência?  De maneira alguma! Mesmo não reconstruindo nem o cosmos, nem a ordem divina e nem o universo, reconstruído pela ciência, há como tocar esse real, habitado pelas forças reativas e pelas forças ativas.

As forças reativas, presentes na vontade de conhecer a  verdade,  da filosofia clássica à ciência moderna, negam o mundo sensível porque “ só podem se expandir no mundo e produzir todos os seus efeitos, reprimindo, aniquilando e mutilando outras forças, ”[1] isto é, as forças ativas. Nietzsche dedica parte da sua obra O crepúsculo dos ídolos à crítica de Sócrates e de sua verdadeira demagogia contra os praticantes da retórica. Quando Sócrates usa seu método, a maiêutica, a arte de parir ideias, coloca-se na posição de quem já  possui ideias mais acertadas e só precisa extrair, de seus discípulos, um conhecimento que se sustenta por uma construção coerente. Os pensamentos de Sócrates são tidos como verdadeiros porque Sócrates literalmente convence. Ele sabe o que está certo ou errado. Sócrates constrói um mundo inteligível e lógico, em detrimento do mundo sensível. Desvaloriza o corpo, “reage” contra o corpo e as emoções que os retóricos sabem tocar tão bem.  “O que não está nos autos, não está no mundo” dizem, até hoje, os juristas de tradição socrática, para abstrair o processo da vida real que não cabe no papel!

Ora, esconder-se atrás da máscara da lógica, das leis universais da matemática e da ficção da democracia, como Sócrates o faz, é para Nietzsche coisa de “populacho” que leva vantagem, quando crê ter encontrado nessas verdades universais o pulo do gato para uma vida sem sustos.  

As forças ativas, ao contrário das forças reativas, afirmam a vida e a sensibilidade do corpo pela arte e por uma visão aristocrática do mundo.  As forças ativas valorizam o corpo e a sensibilidade, são leves, são alegres, porque, afinal, “gosto não se discute”. Os artistas, diz Nietzsche, podem descobrir novos mundos que se abrem sem necessidade de legitimação. O artista é o verdadeiro aristocrata: não dá explicações, mostra! Podemos gostar da música de Bach, Mozart, Roberto Carlos e Adele ao mesmo tempo, porque não há verdade na música. A arte não procura convencer, procura seduzir, provocar efeitos no corpo, tal qual a retórica, “a palavra que toca”.   

E, como é capaz de tocar, ela não pode ser resumida. A verdade, essa sim, pode ser resumida.  Sócrates, em seu combate aos retóricos, pede a estes um resumo de sua fala. É impossível resumir a retórica, como é impossível resumir uma poesia. No jogo de palavras da filosofia socrática, perde-se a beleza, perde-se o essencial, a vida. O artista é capaz de perceber as forças ativas da vida.  Ele as “escuta”,[2]  enquanto os que se dedicam às forças reativas  não as conhecem. Vivem  em confronto com essas forças, o que lhes tira a alegria da vida.  Gozam de uma vida menos pujante, menos poderosa.

No entanto, abrirmos mão das forças reativas seria uma tolice. Para Nietzsche, as forças reativas fazem parte do real.  Sua filosofia não tem nada a ver com o anarquismo e a libertação sexual, como fazem crer seus seguidores, em maio de 1968. Para orientar a vida na prática, o filósofo alemão preconiza a conciliação entre as duas forças, o grande estilo.

Terceira parada: para além do bem e do mal, o grande estilo

Chegamos à desconstrução da moral e, mais uma vez, às temidas marteladas de Nietzsche, com as quais combate tanto o ideal cristão, quanto o humanismo dos modernos. Ele abomina a compaixão. Compaixão é para os fracos. Por sua falta de compaixão, Nietzsche é evocado pelos nazistas que usaram sua filosofia para fundamentar sua teoria racista dos Herrenmenschen (homens-senhores) germânicos, superiores  aos que nasceram para serem escravos, ou seja, os não-germânicos. Nietzsche chega a comentar a satisfação que sente diante dos mortos de um grande desastre natural. Será que é mesmo o Anticristo?

Vendo suas desconstruções mais de perto, Nietzsche é crítico da moral cristã e, também, do humanismo, porque “se a vida é apenas um tecido de forças cegas e dilaceradas, se nossos juízos de valor são apenas emanações mais o menos decadentes, .... de que adianta esperar de Nietzsche a menor consideração ética?”[3] Não há moral, mas há estilo para superar as forças que nos dividem, que nos rasgam por dentro.  

Mais uma vez, é o artista que é capaz de conciliar as forças da vida, tanto as reativas, quanto as ativas. Ele sabe que com sua disciplina e com sua criação, abriga as duas forças na arte.  Essa conciliação leva o um novo ideal, a da harmonização das forças vitais. 

Como exemplo dessa harmonia, podemos citar, no Brasil, a escola de samba.  Só com a disciplina quase militar, ela consegue colocar seus blocos, sua bateria e seus carros alegóricos na avenida para criar uma arte que, a cada ano, é capaz de emocionar o público. Grandes escolas têm um grande estilo, porque conseguem harmonizar e hierarquizar as forças vitais. Quando conseguem mostrar sua elegância na avenida, o “poder desabrocha”, a vida deixa de ser diminuída. Quem já participou de um desfile de uma grande escola de samba sabe que, durante o desfile, a vida fica mais intensa, mais harmoniosa, porque as forças vitais cooperam, não se chocam, não se combatem.

Citei o exemplo da escola de samba como grande estilo para dizer com Friedrich Nietzsche, que a vontade de poder, a vontade de viver uma vida emocionante, mais elevada, não tem nada em comum com a vontade de  políticos nazistas ambiciosos dominarem o mundo.  É o artista quem pode “tornar-se senhor do caos interior em forçar seu próprio caos a assumir forma”[4].  Nada melhor  do que uma escola de samba desfilando em pleno carnaval para testemunhar isso!

Chegada: o amor ao tempo presente

O que vai dizer nosso companheiro de viagem a respeito da salvação, da arte de superar o fato da morte?  Obviamente, não há, para Friedrich Nietzsche uma salvação no paraíso, no nirvana, em Deus ou em um de seus substitutos. 

Podemos viver o que chama de eterno retorno. Este, evidentemente, não é para Nietzsche uma reencarnação, mas sim como um exercício de decisão : “O que vale ser vivido e o que não vale a pena?” Eis a questão! Precisamos, diz Nietzsche, reavaliar constantemente, nossas vidas. O que quero viver, o que quero repetir, o que não?  A escolha é sempre minha!  Por isso, posso amar o tempo presente, a vida como ela é, sem fugir para a nostalgia do passado ou para os projetos do futuro. Quem exerce o amor ao tempo presente, sem, no entanto acreditar na salvação a porvir, vive em grande estilo, ou, se preferir, com as palavras de Jorge Forbes,  uma “vida qualificada”.

Chegamos à psicanálise. Passamos com Friedrich Nietzsche pela desconfiança de que por detrás das construções racionalistas há um real que habita nosso inconsciente. Conhecemos as forças reativas do mundo simbólico e as forças ativas das sensações do nosso corpo.  Sabemos, agora, porque Sigmund Freud pode dizer que  “não somos os donos em nossa própria casa da razão”. Talvez, nós psicanalistas sejamos como os artistas a escutarem as pulsões que vivem em confronto e que tiram a alegria da vida de nossos pacientes que buscam outra vida. Porque não dizer que procuramos, no divã, deixar uma vida mesquinha para trás a favor de uma vida aristocrática, em grande estilo. Na psicanálise, aprendemos a tomar decisões e, principalmente, a desfrutar a vida única que temos.

Só me resta dizer um dankeschön, Herr Nietzsche, por nos mostrar os tesouros que só aparecem por debaixo das ruínas.

 


[1] FERRY, Luc. Apender a viver: filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 201

[2] Ibidem, p. 211

[3] Ibidem, p. 214.

[4] Ibidem, p. 218