Memória Mensal – Ano 1 – N° 1

24/01/2008 00h02

Janeiro de 2008

Editorial

Memória mensal é a mais recente mídia virtual do Projeto Análise. Aqui se inscreverá, mês a mês, a formalização do trabalho produzido no Projeto Análise e no IPLA-Instituto da Psicanálise Lacaniana, tanto no que ele se fundamenta em Lacan e em todos os autores que nos oferecem boa referência, quanto no que tem de reinvenção daquele que o dirige.
Memória Mensal – Janeiro de 2008 inaugura com o tema que ocupou este grupo de pesquisadores durante todas as reuniões do mês. Trata-se da primeira lição de Jacques Lacan, há exatos 37 anos, introduzindo o título de seu seminário XVIII, a que chamou D’un discours qui ne serait pas du semblant.
Este primeiro número é exclusivamente consagrado ao ponto de partida para o percurso que no final nos levará a poder identificar, em Lacan, uma clínica do amor ou da exceção. Amor que (re)vela o real, que escapa ao universal.
Lacan deixa a cada analista a responsabilidade de reinventar a psicanálise e assim fazer com que ela sobreviva. Goethe ensina que a herança precisa ser conquistada, “aquilo que herdaste de teu pai, conquista-o para fazê-lo teu”. De ambos depreendemos a importância da legitimação. Neste sentido, cada Memória Mensal pretende nomear e transmitir, tal como num batismo do que acaba de nascer, é sinal, marca e depois... memória.

São Paulo, janeiro de 2008.

Helainy Andrade

TÍTULO

D’un Discours qui ne serait pas du semblant (1). O décimo oitavo seminário de Jacques Lacan. Recém editado em francês. Por que o ler? A resposta parece tão evidente que a pergunta soa tola. Sequer é original. A seu modo, vários já se a fizeram. Calvino(2) foi um deles. Gastou um livro para responder Por que ler os clássicos. Quanto a nós, não iremos tão longe.
Antes de abrir o livro XVIII, já é sabido que ele contém a solução do famoso e não menos enigmático aforismo lacaniano “Não há relação sexual”. É tão fácil quanto saber seu título. Basta virar e ler a quarta capa, escrita por Miller.
Também não é difícil encontrar seu lugar na genealogia. Segue ao estabelecimento dos quatro discursos, todos do semblante, no ano anterior. Antecede 1972, quando Lacan fala Mais Ainda da linguagem e sexualidade.
D’un Discours qui ne serait pas du semblant é um livro que fala de amor. Este tema universal e atemporal nos reconecta a Lacan que naquela ocasião tratava “do homem e da mulher, das suas mais concretas relações, amorosas e sexuais, na sua vida de todos os dias, mas também nos seus sonhos e nos seus fantasmas(3).”
O homem é sempre assombrado pelo feminino. O medo dos homens é ter sua masculinidade, falicamente orientada, posta à prova no encontro sexual com uma mulher. Ele teme se feminilizar. O real, no gozo, se separa do semblante. Fora do semblante, sua situação se complica: como se garantir homem?
A mulher, esta – antes de qualquer movimento feminista, ainda com Simone de Beauvoir – sempre tem mais trabalho que o homem. Ela tem de se fazer, nunca consegue ser inteiramente recoberta pelo semblante. “A mulher não nasce, se faz”(4). Nada natural, nos termos de Lacan, a mulher é um argumento.
Os relacionamentos deste início de século 21, em sua novidade de configuração, estão no alvo dos saudosos moralistas. Mas isto é apenas barulho de fundo. Com Lacan, a fragilidade e instabilidade podem ser lidas como a marca atual do desencontro que sempre se reinscreve cada vez que um homem e uma mulher se amam.
Lacan identificou o que não cessa de não se inscrever, o real. O discurso não fala a verdade, toda. A relação sexual não co-relaciona. Isto não lhe faz um pessimista, ele não desiste. De que jeito se fala com aquilo que não entra na conversa? Kafka(5) garante que se chamarmos por um nome justo, a vida responde. Lacan não se afasta muito desta defesa. Está em busca de um discurso que não seria do semblante para falar com o que segue uma lógica outra e para além do princípio do prazer, a saber, o gozo.
Agamben(6) aposta no gesto como a magia capaz de evocar. Lacan também valoriza o gesto, mas insiste torcendo a língua e deslizando de um discurso a outro, para, exatamente, atingir algo que não é feito da mesma matéria que a palavra. Excedendo na semblância, sai dela. Produz efeito de verdade. Jorge Forbes formula que o único discurso que não é do semblante é aquele capaz de chamar a felicidade, donc “Acorda amor, alguém te chama ”.

(1) LACAN. J. D’un discours quin e serait pas du semblant, Paris : Éditions du Seuil, 2006.
(2) Ítalo Calvino, escritor italiano, discípulo de Borges.
(3) Miller, traduzido por Jorge Forbes e Alain Mouzat, na quarta capa deste seminário.
(4) Tese de Simone de Beauvoir no livro O Segundo Sexo.
(5) Citado por Agamben, no seu livro Profanações, de 2005.
(6) AGAMBEN, G. Profanações, São Paulo.