O pulo do Jabuti

06/12/2013 19h22

Confira a galeria de fotos do evento.

Claudia Riolfi

 

Em 1930, o psicanalista austríaco Sigmund Freud ganhou o prêmio literário Goethe (em alemão, Goethepreis der Stadt Frankfurt), em Frankfurt, Alemanha. Destinado a reconhecidas personalidades, cujas realizações criadoras são dignas de honrar a memória de Goethe, o prêmio era uma de suas mais importantes premiações culturais. Nascido em 1856, Freud foi premiado na 4ª edição do Goethe, aos 74 anos. Dizem os biógrafos que a emoção de Freud foi confessa pelo nome do prêmio: Johann Wolfgang von Goethe era um de seus escritores prediletos. Lendo suas obras, o motivo fica evidente: está recheada de casos clínicos redigidos com a graça do texto literário, a tal ponto que podem ser lidos como romances.

Dia 13 de novembro de 2013, o psicanalista brasileiro Jorge Forbes ganhou o prêmio Jabuti, atribuído pela Câmara Brasileira do Livro, em São Paulo, Brasil. Nascido em 1951, Forbes foi premiado na 55ª edição do Jabuti, em uma de suas 27 categorias de melhor livro do ano: psicologia e psicanálise. Dias antes da entrega do prêmio, estava, todo contente, dizendo aos amigos que adorava o motivo pelo qual o nome do prêmio tinha sido escolhido: no folclore indígena brasileiro, o jabuti tem papel semelhante ao da raposa de La Fontaine. É apresentado como a personificação da manha, da astúcia e da paciência. Será que Inconsciente e Responsabilidade (a obra premiada) porta esses signos?

Sem dúvida! Foi necessária, certamente, muita perícia para juntar com a conjunção aditiva “e”, no título e no livro, dois termos cuja justaposição até então não era tão óbvia quanto “maçã” e “banana” visando a, declaradamente, tomar a via da sexuação para “ancorar uma ética que implique a responsabilidade sexual pelo inconsciente real”, para além do Édipo.

Analogamente, precisou de muita fleuma para arquitetar um trabalho que, inicialmente, passou pelo crivo universitário, e, depois, ganhou interesse do grande público, ressoando, inclusive, nos jurados do Jabuti. Ainda, demonstrou bastante argúcia ao privilegiar uma temática que fala a todos nós: ao levar em conta as grandes transformações sociais, perceber a pertinência de pensar as raízes da moralidade com fundamento da culpabilidade. Propondo que a “responsabilidade própria da psicanálise não se resolve em esquiva, explicação ou desculpa”, a obra sustenta a tese segundo a qual, na clínica que fazemos hoje em dia, a “responsabilidade sexual pela escolha do parceiro ou do sintoma com que se goza” deve estar em primeiro plano.

Na noite de quarta-feira, a Sala São Paulo estava lotada. Familiares, amigos, colegas do premiado se fizeram presentes. O portador do Jabuti se dividia em mil e administrava o bem-estar de todos. Tinham encontrado lugares? Alguém tinha se perdido? Era um jeito cuidadoso de se revelar feliz.

Para além da alegria pessoal de Forbes, é a psicanálise quem ganha quando o valor de uma obra na qual se lê uma franca campanha contra todos que professam da visada determinista – causa da irresponsabilidade – é premiada. Nos enche de esperanças perceber que fez sentido a um maior número de pessoas que, nas relações humanas, hoje, o ponto de vergonha de cada um deve ser tocado. É o pulo do Jabuti.