Sobre a arte de comover: o passe como processo

29/09/2010 04h50

Trabalho apresentado no SAMPARIOCA II - Os finais de análise e suas provas, em 18 de setembro de 2010

 

 Dorothee Rüdiger

 

 

O passe, que tem como sua principal característica o julgamento sem a objetividade dos  fatos, não  é nenhuma novidade. Ao contrário. É do poeta Homero o primeiro relato de um processo que é um verdadeiro passe. Narra, na Odisseia, como Telêmaco, filho de Ulisses e Penélope, enfrenta a assembleia dos aristocratas de Ítaca. O pai foi à guerra e perdeu-se no caminho de volta à casa. A mãe está assediada por pretendentes ao trono. Telêmaco quer  expulsar os pretendentes do palácio, armar um navio e procurar o pai. O herói, aliás, é  tão apaixonado pela mãe quanto  Édipo. Telêmaco resolve  reunir a assembleia dos nobres para  demandar a expulsão dos pretendentes e meios para conseguir o navio.     Estreia diante da assembleia tentando  comovê-la  a favor de  sua  causa e, assim fazendo, “deixar de ser criança”. Mas, a assembleia, politicamente na mão dos pretendentes, não se comove.  Então, o jovem, com a ajuda da deusa Atena, quem se traveste de Mentor, encontra meios de ir em busca do pai: junta amigos, consegue armar um navio e viajar, deixando para atrás a experiência de um processo que, se não lhe serviu para obter a demanda, como rito de passagem.

Da ficção para os fatos. Não havia, na Antiguidade,  a distinção entre  direito ,  política e  religião, entre o exercício da retórica e a busca da verdade dos autos. Os atenienses , por exemplo,  aprendiam com os filósofos, na escola, o uso da retórica para defender suas demandas perante as assembleias da polis. Um  sistema judiciário  autônomo e o processo  cujos autos devem refletir a verdade dos fatos só aparecem na República  Romana.   E quem diz que os processos modernos, contemporâneos , não são movidos a emoção? Basta assistir a um tribunal do júri. É um processo que é  ganho pela  arte dos advogados do Estado ou dos réus  de emocionar os jurados.

Proposto por Jacques Lacan , em 1967, à Escola Freudiana de Paris, o passe é um processo que deveria garantir o reconhecimento de uma psicanálise. De acordo com o rito processual do passe, o passante, aspirante ao título de Analista da Escola, narra o que sabe sobre sua análise para dois passadores.  São pessoas em análise que viveram recentemente um momento de perda e que farão o relato  da análise do passante para o cartel do passe.  Ao cartel cabe a atribuição do título de Analista da Escola. São reunidos no passe todos os elementos constitutivos de um processo: a demanda, o procedimento processual e o julgamento.  Enquanto, no processo judicial, a decisão deve transitar em julgado, esgotar as possibilidades de recursos, no passe, o passante é declarado AE. Ou não ...

Uma decisão é um corte, é um basta a uma demanda. Mas, como  se pode decidir sobre o fim de uma análise?  Como dar um veredito, se os tempos mudam e a clínica se transforma? Se o  real  não cessa de não se inscrever  e angustiar a todos?   Como julgar,  se palavras não dão conta de dizer o amor e se nosso corpo não resiste à comparação com nossas fantasias? Decisões, diz, Jacques Derrida a respeito do processo judicial, são sempre incalculáveis e a Justiça é rebelde à regra.  Por isso, vereditos não são nem justos e nem eternos. No processo, muitas vezes, não se ganha nada a não ser um outro processo. Isso vale também para o passe, como dá para depreender das entrevistas realizadas por Jorge Forbes com os Analistas da Escola Fançois Leguil, Hugo Freda e Esthela Solano.

O que é julgado no passe é a performance do candidato, não sua competência. O passe dá testemunho da capacidade retórica do  passante e, porque não, dos passadores, verdadeiros advogados do candidato.  O passe, em outras palavras, é retórica. 

A retórica é a arte dos advogados e dos políticos. Por isso, não há de se estranhar , quando Jacques Alain Miller diz que o passe é um “ato de alçar o estrelato”, isto é, o poder.  Na polis grega, era a fala diante da assembleia que dava esse acesso ao poder.   Não é diferente nas associações que reúnem psicanalistas. Mas, se é a retórica que domina o passe, o processo contrasta com o que Jacques Lacan pretendia, quando criou o passe e disse, que “o analista só se autoriza a partir de si próprio”. Esse “si próprio” do inconsciente revela-se na psicanálise.  No divã, guiado pelo seu Mentor,  o jovem psicanalista, feito Telêmaco, independentemente da decisão da assembleia dos nobres, encontra meios para realizar seu desejo, meios, enfim,  para “navegar”.

 

Referências:

 

DERRIDA, Jacques. Force de loi. Paris: Galilée, 1994.

FORBES, Jorge. Seminário. Inconsciente e responsabilidade: um novo amor. Sessão 6. 22 de maio de 2002.

LACAN, Jacques. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

LOPES, José Reinaldo Lima. O direito na história. 3. e. São Paulo: Atlas, 2009.

MILLER, Jacques-Alain.  Coisa Julgada. Pronunciamento na Jornada da École de la Cause Freudienne, 11 de abril de 2010.