Trabalho em TerraDois

28/08/2018 19h46

por Ariel Bogochvol

 

I

Agradeço pelo convite, pelo prazer e honra de estar em mais uma Jornada do IPLA.

Fiquei com a tarefa de comentar um trabalho sobre um trabalho de televisão que, neste episódio, versa sobre o trabalho e que também mostra o trabalho da equipe de TV ao fazer o trabalho. Risco de fazer um meta-meta-meta-trabalho ou de querer ser o espelho que espelha o espelho do espelho do espelho. Vou discutir o trabalho Nova significação do trabalho e a subjetividade 2.0, realizado pelo grupo tutorado por Liége Lise e Alain Mouzat e relatado num belo e instigante texto por Cesar Nogueira.

É o produto do trabalho de grupo que, no IPLA, tem um modo de funcionar inspirado nos cartéis - proposto por Lacan como órgão de base de sua escola - mas com variantes significativas. Como o cartel, é um pequeno grupo que se nutre das relações horizontalizadas entre seus membros e que tem, como líderes, líderes não inteiramente líderes, mas provocadores, catalisadores. Diferindo do cartel, é constituído por um número de pessoas maior do que quatro, além de mais-dois (ao invés de mais-um), que produzem um trabalho coletivo (ao invés de um trabalho de cada um). Interessante, em outro momento, discutir as razões da adoção desse modelo e não do cartel.

A base dos trabalhos da Jornada é o programa Terra2, da TV Cultura, que a genialidade de JF, inventividade, ação, tenacidade, radicalidade, carisma, perfeccionismo, criou. E que se consagrou como o melhor programa de TV de 2017, num prêmio concedido pela APCA - Associação Paulista dos Críticos de Arte

A base do programa é enunciada no release da TV Cultura:

A Terra passa por uma das maiores revoluções sociais dos últimos 2.500 anos. A sociedade migrou de um planeta a outro sem se dar conta e, hoje, vive em TERRADOIS. Geograficamente, TERRAUM, o mundo moderno, e TERRADOIS, referente à pós-modernidade, ocupam o mesmo espaço. Seus habitantes também são muito parecidos. Mas as semelhanças param aí. Na prática, em TERRADOIS, do nascimento à morte, tudo é muito diferente. As fronteiras se dissolveram, os antigos remédios já não salvam mais e, para habitar esse mundo, são necessários novos conceitos.

O programa se baseia numa tese que é defendida, sob modalidades diversas, por vários autores – Giddeon, Bauman, Lipovetsky, Luc Ferry, Lacan, Miller, Jorge Forbes... A pós-modernidade modifica tudo – economia, família, sexo, amor, infância, adolescência, velhice, trabalho, relações sociais, relações amorosas, vida e morte. “Tudo que é sólido desmancha-se no ar”, vaticinava Marx em meados do séc. XIX. “O discurso capitalista modifica todos os discursos”, vaticinava Lacan nos anos 70.

Cada episódio do programa Terra2 é uma ilustração particular desta tese geral. É um programa provocador e aberto e não nos entrega conclusões, como ressalta o trabalho do grupo, mas a demonstração da tese segue uma fórmula geral: dada a condição x (pós-moderna), o efeito é y ... (vejamos, então!). Tem um rigor lógico. É difícil escapar de certo didatismo.

Era, sob outros termos, a questão de dramaturgia colocada pelo diretor do programa na mesa de abertura da Jornada: como o tema de cada episódio pode advir naturalmente da história? O risco dramatúrgico é que a história pareça advir do tema, como uma ilustração didática.

II

É um programa idealizado e conduzido por um psicanalista, produto de um “saber analítico”, mas tratado de forma diferente do discurso analítico. Como um analista, que trata um a um, pode se dirigir ao coletivo, às massas televisivas? Questão delicada, não é fácil achar o tom.

JF, evidentemente, não é o primeiro analista ou psicoterapeuta que se dirige às massas televisivas. Lacan, por exemplo, se dirigiu às massas televisivas e radiofônicas em entrevistas memoráveis – “Televisão” e “Radiofonia” - mas não tinha um programa para chamar de seu. Se não me engano, J. A. Gaiarsa tinha um programa seu, bem como E. Mascarenhas, F. Gikovate, C. Caligaris, G. Miller. Muito poucos e cada um com seu estilo. O programa idealizado por Jorge Forbes é, de qualquer forma, sui generis: um mix de psicanálise, dramaturgia, debate com os criadores, roteirista, diretor, atores, bastidores, encenação propriamente dita, discussão dos resultados.

Diferente de uma psicanálise, em Terra2 é o analista que começa falando. Ele intervém em variados momentos. Recebe a nova atriz, dá boas vindas na sua chegada à Terra2, apresenta-a como digna representante do novo mundo. Ao longo do episódio, expõe seu ponto de vista sobre o tema em pauta, sustenta sua posição, sua questão, debate com todos e sugere um tratamento a dar ao que se apresenta. Dirige o programa, isto é, dá a sua direção.

Jorge Forbes, o analista, não ocupa uma posição de analista. Não está posicionado como objeto a da fala e da transferência de um analisando, mas de mestre, DM que, com o seu S1, rege todos os acontecimentos. Ou de maestro que rege uma orquestra.

Discurso do Mestre: T1  T2

                                  $     a

Lacanianamente pode-se dizer que T1 representa um sujeito $ para T2, da mesma forma que um significante S1 representa um sujeito $ para outro significante S2. É a fórmula que apresenta o sujeito contemporâneo, dividido entre T1 e T2 e que não o representam totalmente. Esta fórmula que Jorge Forbes enuncia como um mestre, sem enunciá-la propriamente, põe todos a trabalhar, inclusive ele mesmo, trabalhador incansável.

A afirmação sobre a mudança operada por Terra2 poderia se apresentar na forma do discurso universitário, se o programa fosse regido pelo saber sobre T2 enunciado de forma anônima, sem sujeito $ a ser representado. Há todo um cuidado para evitar que isso ocorra – a demonstração de uma tese acadêmica dessubjetivada, como em um documentário, por exemplo - e para que os espectadores se sintam provocados e implicados, como sujeitos, na trama.

Discurso da Universidade: T2      a

                                           T1      $

Por outro lado, ao se expor como se expõe, ao fazer os enunciados primordiais e implicar sua enunciação, Jorge Forbes se coloca, da mesma forma que Lacan em seus seminários, numa posição analisante. Sujeito dividido $, interroga o significante mestre T1 e traz a sua questão, como no discurso da histeria. O programa Terra2 é uma espécie de psicanálise de Jorge Forbes.

Discurso da Histeria: $    T1

                                  a     T2

Como disse ontem na sua conferência de abertura, “a coisa é muito simples: passamos de um regime de relações baseado na verticalidade para um regime baseado na horizontalidade ou na rede, de uma sociedade pai-orientada para uma sociedade não pai-orientada ou orientada pela pluralização dos Nomes do Pai (NPs). Isso ocorreu ao longo do séc. XX e se radicaliza no séc. XXI. Vai marcá-lo indelevelmente.” Desta pequena afirmação brotam consequências aos borbotões, inesperadas e insólitas. Incrível a fecundidade heurística do matema T1 – T2. Não é o menor dos paradoxos que o programa seja pai-orientado e ofereça bússolas para ler um mundo não-pai orientado, desbussolado.

 III

O episódio analisado pelo grupo chama-se Caffeíne, nome de uma cafeteria onde se encontram um casal e o pai da mulher. O cenário é inspirado em Dogville, filme de 2003 de Lars Von Trier. Ele quer falar de trabalho com o genro. E lhe oferecer um trabalho. Sua oferta de trabalho e os argumentos para sustentá-la se chocam com a recusa e os argumentos do genro. Este é o enredo principal.

Como assinala o trabalho do grupo, os dois personagens masculinos são construídos em torno de dualidades. A mulher é construída em torno do papel da mediação, tentando se equilibrar entre T1 e T2. Pólos da discussão: foco x multifoco, futuro temido x futuro inventado, sério x brincadeira, alienado x em si, uma geração x outra geração. São posições defendidas e atacadas durante a encenação.

Chama a atenção, de início, a posição de não-saber do pai. Ele não sabe exatamente o que o genro faz, o que ele desenvolve, nem que ele é um dos proprietários da cafeteria em que se encontram. É um pai bonzinho, bem intencionado, mas que não tem a menor ideia de como a sua filha vive. Está literalmente por fora. Sua oferta é feita desde uma posição de alienação. Confunde a situação de seu genro com a do filho de seu amigo.

Apesar de ser apresentado como um conflito de posições definidas, a ação se sustenta na ignorância do pai da mulher, um sogro que oferece um emprego para um genro que estava, não apenas empregado, mas multiempregado. Não parece que haja uma contradição absoluta entre as concepções de trabalho explicitadas por cada um, mas concepções de trabalho que podem coexistir: uno, múltiplo, verticalizado, horizontalizado, especializado, multiespecializado, em rede, convivendo sem exclusão mútua. Não se imagina que, em Terra2, o sistema de trabalho possa se basear tão somente na multiplicidade prescindindo da especialização, da dedicação a uma tarefa, que prevalece em Terra1.

Pensemos no próprio grupo que faz Terra2: é constituído de sujeitos multitarefas ou especializados em seus campos – diretor, atriz, roteirista, diretor de arte? Mesmo que, individualmente, possam praticar a multitarefa, a equipe é constituída por “especialistas” que trabalham juntos, em interação, democrática e criativamente, na busca de um resultado comum, coletivo. Cada um ocupa seu lugar na “cadeia de produção”. Jorge Forbes, por seu lado, é exemplo vivo de um homem multitarefas: analista, doutor, professor escritor, idealizador de programa de TV, diretor de instituto de pesquisas em psicanálise, de uma empresa de consultoria.  O personagem do genro tem, sem dúvida, um quê de si.

Por outro lado a ideia do homem livre, criativo, empreendedor, multiempreendedor, está na origem do capitalismo e não apenas em T2. Está presente também na era do renascimento. Leonardo da Vinci é um arquétipo do homem desse tempo. Nascido em 1452 na atual Itália e falecido em 1519, se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, escultor, pintor, arquiteto, botânico, poeta, músico, precursor da aviação, da balística. Sua curiosidade insaciável era igualada apenas pela sua capacidade de invenção. Interessante estabelecer uma conexão entre o ideal do homem da pós-modernidade e do renascimento.

O sogro é apresentado como um homem comum, com suas preocupações mundanas, banais, insegurança, medo do futuro. O seu ideal de genro, mesmo sem o explicitar, não é tanto do homem-capitalista, mas do funcionário público, que goza dos direitos e segurança da burocracia estatal. Uma versão menos burocrática seria o ideal yuppie dos anos 80/90, que marcou toda uma geração, mas não parece ter marcado o sogro em seus ideais.

Em T0 trabalho não rima com felicidade, mas com maldição. O paraíso, de onde Adão e Eva / a humanidade, foram expulsos é o lugar onde não é preciso trabalhar, graças a Deus, e é o lugar a que se deve aspirar após a morte, depois de se padecer uma vida de sofrimento e labuta.

Na Grécia antiga, o trabalho era uma tarefa dos seres inferiores, os escravos, o que proporcionava aos cidadãos livres, os senhores, o ócio necessário para se dedicarem à prática das virtudes, competições e à preparação para a guerra. Para a cosmovisão da época, a diferença das condições do senhor e do escravo derivava das leis da natureza. Da mesma forma que os astros ocupavam seu lugar no firmamento, cada um devia ocupar seu lugar na sociedade. O cidadão bem pensante podia alcançar a felicidade, o escravo trabalhador não.

Para o catolicismo, na era medieval, o trabalho era apenas um modo de sustentar-se e o homem deveria produzir o estritamente necessário para a sua subsistência. Proibida a usura, a acumulação de dinheiro e bens permaneceu adormecida. A salvação das almas se dava através da confissão, das indulgências e da presença aos cultos, sem qualquer relação com o trabalho e seus rendimentos.

A passagem ao período capitalista é o momento em que uma nova ética e um novo espírito tomam forma. As mudanças no modo de produção alteram as relações sociais. O capitalismo transformou a força de trabalho em mercadoria. O operário não vende para o capitalista o produto de seu trabalho, vende sua força de trabalho e recebe como salário o necessário para repô-la. Em troca, o capitalista se apropria do que o operário produz e extrai a mais-valia.

O ganho proporcionado pelo trabalho deixa de ser – especialmente para o capitalista - apenas um meio de satisfazer as necessidades materiais e passa a ser a finalidade da vida. Há um processo profundo de re-significação do trabalho. A mudança da estrutura econômica produziu modificações na superestrutura social e ideológica. Desenrolava-se uma mudança mais profunda do que a passagem T1 e T2, uma vez que implicava em mudança no modo de produção e T1 e T2 são variantes do capitalismo, de um mesmo modo de produção.

Para Weber, a ética protestante está na constituição desse espírito que impele o homem a canalizar suas energias para o trabalho, como forma de atender os desígnios de Deus e também de se afastar dos desejos e tentações. “Trabalha duro na tua profissão”, é a fórmula para evitar as tentações sexuais, as dúvidas religiosas e os escrúpulos torturantes, juntamente com uma dieta vegetariana e banhos frios. Para o puritanismo protestante, a falta de vontade de trabalhar é sintoma do estado de graça ausente. A vocação ou profissão do indivíduo está definida no plano divino, é uma emanação da vontade de Deus e uma obrigação religiosa para o indivíduo. É uma boa forma de justificar e sustentar a ordem reinante.

Por outro lado, a industrialização, a divisão de trabalho, a fragmentação das tarefas e a produção em escala tornam alienado o trabalho no sentido objetivo e subjetivo. Pela expansão da maquinaria, o trabalho dos proletários perdeu todo o caráter autônomo e, com isso, todo atrativo. O operário tornou-se um mero acessório da máquina, do qual é exigido apenas o mais simples movimento de mãos, o mais monótono, o mais fácil de aprender.

Para Freud, a atividade profissional traz particular satisfação quando é escolhida livremente. Nenhuma outra técnica para a condução da vida prende a pessoa tão firmemente à realidade. A possibilidade que o trabalho oferece de concentrar nele e nos relacionamentos humanos ligados a ele uma forte medida de componentes libidinais – narcísicos, agressivos, eróticos – empresta-lhe um valor que não fica atrás do seu caráter imprescindível para a afirmação e justificação da existência na sociedade. Mas a imensa maioria dos homens não escolhe livremente sua ocupação e trabalha apenas forçado pela necessidade. Graves problemas sociais e psicológicos derivam disso.

Diferente do que previam os profetas do progresso – livres pensadores, liberais, homens das ciências, empresários, revolucionários -, o desenvolvimento vertiginoso das sociedades, produto da associação do capitalismo com a ciência e a tecnologia, não foi capaz de assegurar a felicidade aos homens. O Mal-estar na Civilização, descrito por Freud em 1929, às vésperas da quebra da Bolsa de N.Y, permanece insolúvel quase cem anos depois, sob novas roupagens.

            Com o advento da Inteligência Artificial (IA), estamos à beira de uma nova revolução. As máquinas automatizadas estão se transformando em robôs e aprendendo com a própria experiência. O homem terá de dividir seu ambiente com uma nova forma de inteligência. E poderá ser substituído por ela. As especulações sobre o que a IA pode vir a representar para a existência humana alimentam os sonhos mais utópicos e os pesadelos mais terríveis.

 V

            O trabalho do grupo procura rastrear as influências que moldaram o pensamento, a visão de mundo e do trabalho do sogro e do genro.

O sogro parece ter sofrido influência da ética protestante – a importância do trabalho, do trabalho focado e centrado, da seriedade – mas suas preocupações são desprovidas de qualquer caráter religioso ou sagrado. Pelo contrário, são bem mundanas, laicas. Não se preocupa com o fato do genro estar cumprindo ou não a vontade divina, mas dele estar garantindo ou não a segurança, a sobrevivência e o futuro da filha.

O genro, por sua vez, não se define por um título ou por uma ocupação específica, mas pelas múltiplas coisas que faz. Sua concepção de sucesso tem a ver com a realização do desejo, de encontrar algo de si em tudo, de não trabalhar para o outro, de não estar alienado. Em sua posição, ouvem-se os ecos dos jovens de 68 em seu movimento libertário: “seja realista, deseje o impossível.”

Há também diferenças notáveis em relação à geração de 68. Há 50 anos, lutava-se contra a ordem, a norma, a burocracia, a repressão. A contracultura tinha um caráter de libertação individual e coletiva. O genro multitarefa não luta politicamente contra nada, não ergue barricadas contra o regime, não sai às ruas, não protesta. Ele surfa da melhor forma possível no regime. É produto de uma nova era – a do declínio do Pai e dos significantes mestres, tempo da pluralização dos NPs -, suas referências são outras. 

O futuro é sombrio ou luminoso? Diante das duas perspectivas, o programa Terra2 parece adotar a segunda, não sem supor que a luminosidade estará entremeada de sombras. Terra2 não é o mundo da esperança do futuro ou da nostalgia do passado. É o mundo do aqui e agora, do presente, sem o peso do passado ou do futuro, tempo de eternidade, no entender de JF. Na medida em que não está regido por padrões rigidamente estabelecidos, exige de todos aqueles que nele habitam uma boa dose de criatividade e invenção.

 

VI

Ao final do programa a câmara foca Jorge Forbes e a atriz Bete Coelho. Ele, sorrindo, na posição de objeto a, questiona enigmaticamente os telespectadores $s. Ocupa, no encerramento, um lugar eminentemente analítico.

Discurso do Analista:

a $
T2 T1