Um macaco para Kandel

31/03/2007 20h22

Márlio Vilela Nunes

Eric Kandel, utilizando-se da biologia, diz que, para tratarmos os males que afligem homens e mulheres no mundo de hoje, temos que conhecer mais. Para tanto, temos que abrir mão das limitações que nossos sentidos nos impõem, bem como da nossa visão particular, pessoal, no estudo do corpo humano. Precisamos de uma super lente que nos permita ver, descobrir e descrever o corpo em todos os seus detalhes. Sair das aparências enganosas e chegarmos à essência do mesmo. Essência que pode ser universalizada através de fórmulas gerais. Portanto, apesar de se apresentarem como um rompimento com o dualismo corpo/mente ou corpo/alma, as neurociências mantêm o dualismo platônico de aparência/verdade, mundo ilusório/mundo ideal. No passado, com o predomínio da organização religiosa da sociedade, o corpo era, pela sua limitação mundana, a origem da corrupção da alma. Esta última, era a essência do humano, sua face verdadeira e eterna. Só com a eliminação do corpo terreno, com a morte, a pessoa poderia encontrar o paraíso. Hoje, com a crença de que mente e cérebro são a mesma coisa, busca-se isso ainda em vida. Basta sabermos tudo sobre o corpo e o transformaremos em alma. Antes, tínhamos a promessa de felicidade após a morte e agora temos a mesma promessa nesta vida, quando conseguirmos, justamente, eliminarmos a morte. Teremos um corpo completo, inteiro, em sua essência universal. E, se, universal, também, reproduzível. Mas o que pode ser universalizado, o que pode ser reproduzível? Ora, o que é equivalente, o que é igual. O que é uma unidade que, somada, pode dar 2, 3, e assim por diante. É isto que a neurociência tem proposto – fazer com que um seja igual a um para somados darem 2. Assim, entendemos as equivalências propostas por Kandel.

Inconsciente é o mesmo que memória procedural. Na verdade, uma equivalência do homem a um modelo animal. A igualdade do homem a um macaco, a um rato ou mesmo a uma aplísia (molusco invertebrado), como faz Kandel em seus estudos sobre a memória. Se, no mundo religioso, o narcisismo humano era um ser divino, com a biologia, o narcisismo é ser um animal. Seguindo esse caminho, o grande projeto, depois de clonarmos ovelhas, cachorros e vacas, será clonarmos o homem. Se consigo fazer uma cópia de mim, um igual a mim, então eu sou um. Sou concreto, inteiro, posso ser descrito por um modelo. Na genética, por exemplo, poderemos dizer que o fenótipo humano é igual ao genótipo. A transformação do homem em unidades equivalentes (mesmo que ainda em promessa) permite a ciência usar de modelos matemáticos que fazem 1+1=2. Teríamos, assim, um convencimento lógico, portanto, uma demonstração de verdade. A matemática é lógica, justamente por ser só linguagem, signos aleatórios que podem representar qualquer coisa. Lacan responde que o que se pode saber é apenas o que a linguagem pode dizer e que ela nunca pode dizer tudo. Desta forma, não se pode dizer que atrás do mundo aparente encontraremos o mundo verdadeiro. A ciência faz uma alucinagem ao se usar da matemática, da linguagem, para fins de certeza. E, o que se oculta neste uso, é que, para que 1 seja igual a 1 é necessária a convicção de que haja um, pelo menos um, que seja um. Um que seja inteiro, pleno. Este lugar, sabemos, é de Deus. Se Deus existe, e é um, então nós, feitos a Sua semelhança, também, poderemos ser. Mas a experiência psicanalítica coloca um problema para esta crença. Lacan relata que não se pode falar em duas mulheres. Porque não existe uma mulher igual a outra. A mulher não existe enquanto uma unidade e sim caso a caso, de forma singular e incompleta. Não se pode dizer a mulher, mas apenas aquela ou esta mulher. A inexistência de uma mulher, por imagem e semelhança, elimina a possibilidade de um Deus pleno, todo. Não há o outro do outro. A falta de uma mulher faz um furo em Deus e Deus não pode ser furado. Pode-se, assim, tentar entender porque a psicanálise é a filha maldita da razão e da ciência. Ela denuncia o quanto estes projetos ainda se orientam por um ideal divino. É a praga freudiana, cuja virulência tem se procurado atenuar por diversos artifícios.

Freud não abandonou a sua Viena cosmopolita, lugar de uma realidade inquietante, de uma curiosidade que não se contentava com as fórmulas prontas. Morreu com esta Viena. Kandel, aos 10 anos, fugiu do terror nazista, da barbárie que tomou a sua Viena infantil e encontrou segurança, conforto e merecido sucesso nos Estados Unidos da América. Com esta pátria fez um laço, estabeleceu um compromisso. Seguiu seus padrões. Freud havia alertado sobre o modelo americano. Nos Estados Unidos, se faz uma miscelânea da psicanálise com diversas outras formas de pensamento incompatíveis. Da mesma forma que, hoje, nos propõe Kandel com suas equivalências de conceitos psicanalíticos e biologia. Tudo em nome de uma praticidade americana. Faz-se logo um igual a um para dar dois e, desta forma, universalizamos padrões e podemos vendê-los. Assim, fazemos bilhões. Mas percebemos que vacila a lógica do acúmulo. Vacila no momento que, somando um mais um, fazemos milhões, mas não fazemos Deus, não chegamos lá. Na ânsia, o planeta tem sofrido, nossa própria sobrevivência se coloca em perigo. Sem uma referência divina que nos norteie, seremos tomados pela violência e a destruição? Frente aos impasses do mundo capitalista, do mundo globalizado, a ciência responde na mesma direção da patologia. O acúmulo de conhecimento nos trará um tratamento adequado, uma cura.

É esta a pergunta que se deveria fazer para Kandel. Diante dos males do mundo globalizado devemos esperar pela promessa científica? Quem sabe, dessa maneira, se possa tocar Kandel em um outro compromisso que não o em relação à sua pátria protetora. A sua honra de clínico, de médico. A proposta de nos fiarmos na biologia é o melhor tratamento para a doença atual? Não pode ela matar o doente?

O Projeto Análise deve se apresentar para Kandel desta forma. É um centro de pesquisa de tratamentos para os problemas do homem e da mulher desbussolados, como definido por Forbes. Procura inventar soluções para manter o convívio humano, sem um ideal comum que nos oriente. É um núcleo de vanguarda, mais de ponta que o mais recente aparelho de neuroimagem. Suas pesquisas são fundamentais tendo em vista os descompassos contemporâneos. Deveria, assim, se apresentar, também, à comunidade e buscar fundos, como fazem centros de pesquisa para a diminuição da violência, drogadição, para tratamento de doenças infecciosas, etc.